07
abr
12

A Importância do Questionamento Teórico Na Construção das Poéticas Contemporâneas.

Quando o rubor de um sol nascente caiu pela primeira vez no verde e no dourado do Éden

Nosso pai Adão sentou-se sob a Árvore e, com um graveto, riscou na argila;

E o primeiro e tosco desenho que o mundo viu foi um júbilo para o coração vigoroso desse homem.

Até o diabo cochicar, por  trás da folhagem, “É bonito, mas será Arte?”

 

(Rudyard Kiplin)

Diversas dúvidas se apresentam a todos que se interessam mais demoradamente pela produção contemporânea em arte- mais especificamente em artes visuais – seja por simples curiosidade e deleite da experiência do fruir arte e do colecionar, ou pelo envolvimento profissional com a mesma, que além da produção artística, também abrange a arte/educação, a crítica de arte e a comercialização. Certamente cada uma destas atividades traz em si níveis distintos de questionamentos, bem como diferentes níveis de necessidade em aprofundar-se em uma ou mais especificidades de conhecimento teórico/prático. De qualquer forma, é uma característica intrínseca à arte contemporânea esta necessidade de se pensar e repensar, este questionamento que vai com ela a qualquer lugar e a torna o que é, ou o que pretende ser.

Em primeiro lugar, é preciso pensar no que é arte contemporânea, onde estão seus limites, suas características básicas, que compõe o roteiro de leitura mental que nos faz olhar uma obra e dizer que o que é visto ali é uma obra de arte contemporânea. Ora, o termo “contemporâneo” tem um significado bastante claro, que pode nos fazer afirmar sem dificuldade alguma que todo objeto artístico produzido hoje é arte contemporânea. Certamente isto acaba sendo um conceito deveras simplista e que corre o risco de nos levar à discussão infrutífera do “tudo é arte/nada é arte”. Aí já vemos claramente a necessidade da sustentação teórica que pode então nos ajudar a sair deste embate tautológico. Isto significa que lendo este ou aquele autor eu poderei conhecer e entender completamente a arte contemporânea? Certamente a resposta é não.

O aprofundamento teórico, especialmente o produzido e debatido coletivamente não nos dará este roteiro de como conhecer e entender arte contemporânea justamente porque uma de suas características principais é que ela não se enquadra em roteiros específicos, em fórmulas teóricas, em práticas e técnicas pré-determinadas. Não delimita tempo, tema, espaço, suporte. Não cabe em regras, manifestos, escolas com características delimitadas. Mas isto não nos autoriza, por outro lado, a dizer que a ela qualquer coisa serve, muito menos apontar dedos inquisidores sobre este ou aquele artista porque em nossas convicções esta ou aquela técnica, este ou aquele tema não cabem na arte contemporânea. Produzir nos dias de hoje também não é sair em busca do novo. Já no início do século XX, o poeta russo Maiokoviski versava que “nada de novo há no rugir das tempestades”. E porque haveríamos de reinventar rodas justamente agora.

Mas o que é arte atualmente, então?

Muito além da busca pela autonomia do artista que se via na arte moderna, a arte contemporânea, que assim chamamos por falta de um termo melhor, recoloca o artista no mundo, e num mundo onde a palavra chave é a diversidade. Diversidade de temas, de questionamentos, de técnicas, de conceitos. Tal diversidade que tornou pequeno demais o termo “artes plásticas” e a este se precisou dar um espaço maior para abranger manifestações não-táteis, não plásticas, como a performance, a vídeo-arte, a body-art , os happenings e tantas outras linguagens que foram abraçadas pelo conceito de “artes visuais”. E ele ainda é pequeno. E gera equívocos imensos, como tantas outras questões na contemporaneidade da arte.

Vejamos alguns exemplos, considerados pelos críticos como os grandes artistas deste começo de século. Olafur Elisson extrapola os limites das galerias trabalhando com intervenções de gigantescas proporções em espaços urbanos, como, por exemplo, na obra “The New York City Waterfalls”, onde o artista inseriu cachoeiras enormes em cima de prédios, embaixo de grandes pontes, e outros lugares onde jamais se pensaria uma cachoeira, buscando fazer com que os cidadãos passassem a perceber de outra maneira o seu entorno, questionando a vida moderna que faz com que estejamos alheios até mesmo aos lugares onde passamos diariamente. Inversamente, a brasileira Renata Lucas insere um jardim dentro da Tate Modern Galery, questionando a esfera pública e privada de se pensar a natureza. A chinesa Ai Wei Wei, utilizando-se de um processo considerado bastante moderno em comparação com a tradição milenar de algumas técnicas, que é a fotografia, critica as construções modernas expondo fotografias de portas e janelas antigas, de feitio artesanal de casas das dinastias Ming e Qing, enquanto Damien Hirst organiza seu próprio leilão, subvertendo toda a lógica do mercando, passando por cima dos marchands e transformando a comercialização da arte em espetáculo.

Alguém poderia, por acaso, acusar o artista africano Yonamine por usar Basquiat e Warhol como referência para suas pinturas e colagens? Ou o coletivo Assume Vivid Astro Focus por promover festas psicodélicas em lugares como o Museu de Arte Contemporanea de Los Angeles e chamá-las de performance? Ou Takashi Murakami por produzir pinturas e esculturas que chama de Toy Art? Não. E sim. E o que dizer da performance do coletivo Chelpa Ferro, que levou a catarse ao extremo ao destruir completamente um automóvel modelo Maverick na 25 Bienal de São Paulo?

A diversidade de possibilidades não nos exime da possibilidade de gostar ou não gostar de algo. Não é porque estes citados foram os eleitos da crítica que devem ser os eleitos pessoais de cada um de nós. O historiador de arte E. Gombrich nos diz que não há motivos certos ou errados para se gostar de uma obra, mas há motivos errados para não se gostar desta ou daquela obra. Nisto também reside a beleza da arte de nossos tempos.

Conhecer o processo histórico que trouxe o fazer artístico ao patamar onde ele se encontra, entender os processos produtivos da atualidade, os desafios, as características subjetivas, os significados, as regras, as definições, problemas, especificidades estéticas, debater coletivamente e confrontar tais conhecimentos com suas próprias práticas, é certamente uma forma de potencializar a própria construção poética, a prática educativa, ou qualquer outra forma de envolvimento que o sujeito possa ter com o fazer artístico. Por si só, um motivo mais do que justo para utilizar este poderoso instrumento, que é o questionamento teórico.

12
out
11

Feliz Dia da Criança?

Eu dedico  este post às crianças da Ocupação Olga Benário, de Piraquara, agora completamente desfeita. Pequenos guerreiros, aprendendo desde cedo a angústia de não ter moradia.

Cedinho, numa das tantas manhãs em que os pais fizeram vigília a espera do anunciado desepejo – o segundo, pois já tinham sido despejados e agora ocupavam o pátio de uma escola- a pressão da incerteza. Enquanto isso as crianças só apenas crianças brincando. Mas estas marcas ficam.

12
out
11

 

O amor saiu pra comprar cigarro e nunca mais voltou.

 

Saiu assim, vestido de maneira casual, como quem intenciona mesmo não ir muito além da esquina. Já faz um bom tempo que isso aconteceu. Estava sorridente, cheio de planos e promessas e saiu dizendo que voltava rapidinho. Que era o tempo botar a mesa pro jantar.

 

No começo veio a preocupação. O amor não mente. Só pode estar encrencado. Ou ferido. Quem sabe teve um ataque cardíaco com aquele coração tão grande. Quem sabe foi atacado pelo ciúme numa rua escura. Por noites e mais noites andei a sua procura em hospitais, IMLs, sanatórios e valas por aí afora. Nem sinal.

 

- Ouvi dizer que foi visto no futebol.

 

Ah, então foi isso. O amor foi comprar cigarros, encontrou os amigos, tomou umas cervejas e foi pro futebol. Logo volta. O amor sempre volta, não é?

 

Coisa estranha essa. Podia ter avisado. Mas o amor é assim mesmo, acho. Ele confia. Quem confia espera confiança. O amor deve estar me testando.

 

Sentei-me frente à soleira da porta e os dias foram indo embora. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a saudade já estava fervendo a água e preparando o mate. Vez em quando batia palmas em frente o portão a desconfiança. Mas a esperança, que a esta altura tomava conta da casa, não a deixava entrar. E vinha com um discurso muito bonito sobre as tantas virtudes do amor e de tantos casos onde a desconfiança destruiu, ou quase, os mais belos relacionamentos. Quando estava quase a perder na argumentação apelava os mitos gregos. Aí não havia quem discutisse, diante do vôo do Cupido, ferido pela desconfiança de Psiquê. Até a razão abandonava o recinto, completamente sem argumentos.

 

Numa noite chegou um bilhete. “Volto logo”.

A razão calou-se. A Esperança propôs uma festa. Flores e doces para todos os lados. Muita bebida, muito alvoroço. A desconfiança achando melhor não investir em coisas perecíveis, a saudade a perfumar-se na espera de morrer gloriosamente. A solidão à espreita.

 

O amor saiu pra comprar cigarro e até agora não voltou

 

Disse que demorava o tempo de se colocar a comida na mesa. A comida já estragou. A festa não aconteceu. As flores já murcharam , os doces, a solidão devorou.  A desconfiança ganhou espaço, a saudade ficou violenta  e tenta me sufocar enquanto durmo. A razão me bate quando percebe meus olhos molhados. A esperança adoeceu.  Parou de se alimentar, e tornou-se muito dramática, um tanto chantagista. Não me deixava chorar, pois dizia que era maldade minha e agravava sua doença. Mas a tristeza me ensinou a esconder minhas lágrimas em filmes, livros e músicas. Chorar minha história na história dos outros.

 

Certa noite, a desconfiança juntou-se a raiva e ambas me convenceram a sair à sua procura novamente. Levava comigo uma navalha afiada e rezava, fervorosamente, para encontrá-lo em algum bar fedendo a perfume barato para acabar com ele antes mesmo que ele pudesse sorrir. O amor às vezes é tão cruel que é preciso arrancar-lhe a crueldade da cara a navalhadas. E marcá-lo, para que ninguém no futuro pense que ele é verdadeiro. Não o encontrei. Voltei para casa cansada, semanas depois, acompanhada da decepção. Fui recebida com um sorriso aliviado da esperança, que a esta altura já estava até mais corada.

 

Mais tarde, muito mais tarde, veio a notícia que estava apostando em mesas de poker e cavalos. Soube que apostou em uma égua azarona e que com ela ganhou um bom dinheiro por um tempo. Então certa noite ele resolveu apostar todas as fichas que tinha na tal égua que tantas corridas ganhou por ele. Ela perdeu a corrida. Deliberadamente por conta de outro apostador que pagou uma comissãozinha por fora.

 

E ele  já não podia voltar. Não sobrou nem para o cigarro.

 

Como voltar? O amor sabe ser cara de pau só quando não precisa. O amor não sabe admitir que fez escolhas erradas. O amor coloca a culpa no destino, sempre que possível. Ele é bom quando quer. O amor esconde sua monstruosidade num sorriso. O amor tem mil faces.

 

Todo amor é assim, meio Dorian Gray.

 

Faz tanto tempo que o amor saiu pra comprar cigarros e não voltou mais, que até o dono da venda já morreu. Eu sei porque acompanhei com o olhar seu cortejo passando aqui em frente. Sentada na varanda, lendo um romance oitocentista, ouvindo Ella Fitzgerald, ao ver aquele caixão passar, senti uma súbita inveja. Olhei para a esperança sentada ao pé de mim, costurando com a saudade uma estúpida colcha de lembranças e pensei:

-Feliz esta aí que está enterrando seu amor. Eu queria poder enterrar essa maldita esperança que não morre. Ela e sua corja.

 

E então uma lucidez impressionante tomou conta de mim. Olhei ao meu redor. Que situação deprimente, que casa escura, feia, e cheia de visitas indesejáveis!

 

-As comadres vão ficar aí de prosa pelo resto da vida? Podem ir dando o fora da minha casa. Levem as velas, o choro e tudo mais. Levem o blues e os sambas de tristeza, os poemas nostálgicos.

 

Vou buscar uma flor para colocar de  cabelo. E antes de sair, pelo menos me façam o favor de abrir as janelas e me passar a roupa de domingo. Depois, podem me esquecer.

 

16
ago
11

Carta Anônima

Encontrei este texto do Caio Fernando Abreu quando estava pesquisando um texto para a récita LGBT que rolou outro dia. E ele caiu como uma luva no que eu buscava. Algo que fosse “sem gênero”. Que mostrasse que amor é amor…Não importa quem são os donos dos corpos que o carregam. Nos últimos dias, esta carta poderia muito bem ter sido escrita por mim…
Desenho: Sarissima por Jara Reis…a long long time ago…
“Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.
Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você – seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.
Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.
Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.”
29
jul
11

Ah, Clarice… assim somos…

Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo. 
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos. 
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso. 
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade… Já tive medo do escuro, hoje no escuro “me acho, me agacho, fico ali”.
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de “amigo” e descobri que não eram… Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE! 
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. 
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer: 
- E daí? EU ADORO VOAR!

CLARICE LISPECTOR

26
jul
11

Do tempo

Não tenha medo, cavaleiro, de sentar-se junto a esta fogueira para descansar seu corpo cansado e aliviar as dores de uma longa viagem
Não tenha medo de deitar sua cabeça ao colo da dama que o recebe, e comer amoras silvestres  e rir dos fantasmas que assombram as pessoas que acreditam em contos de fadas como vocês.

O coração só pode bater direito quando cresce.

17
jul
11

Mulheres em Marcha

 

(Fotos: Adriana Baggio)

Há algum tempo estou pensando em colocar algumas coisas no papel e nada melhor que o dia em que aconteceu , em Curitiba, a Marcha das Vadias, para fazer isso. Infelizmente não pude comparecer por não estar na cidade, mas a minha opinião a respeito das Marchas que estão acontecendo mundo afora já estava formada, independente de comparecer ou não.  Tenho pensando bastante sobre isso e lido muitas opiniões a respeito, geralmente em blogs de companheiras feministas . Não vou fazer um histórico da marcha porque não há necessidade. Muitos textos de boa qualidade já foram publicados onde é possível obter tais informações.

A primeira coisa a se pensar é que a marcha, aqui, tem uma conotação muito diferente da que aconteceu no Canadá. Não porque as organizações das marchas brasileiras tenham objetivos distintos, mas o contexto histórico das lutas aqui e lá, assim como diferenças culturais, o histórico machista-escravocrata do nosso país, fazem com que os efeitos da marcha no público em geral sejam bem diferentes por aqui. Podemos começar pensando, inclusive, no próprio evento que originou a marcha canadense. Lá, as mulheres não se calaram diante de uma declaração pública machista e absurda e a mesma foi motivo suficiente para irem às ruas. Aqui as declarações machistas são lugar comum. Tão comum que a própria marcha é alvo de críticas reacionárias e piadas idiotas de quem não percebe o tamanho do problema que ela traz à tona, que ela quer discutir. Inclusive muitas mulheres têm uma ideia bastante equivocada da marcha. É possível perceber também a visão equivocada que homens e muitas mulheres têm do feminismo e das lutas históricas das mulheres, do quanto ainda precisamos lutar. Acho que o texto da Lola sobre isso é bem bacana neste sentido e vale a pena ser lido. (inclusive acho que seria bacana vc abrir esta janelinha,  dar uma pausa neste textinho aqui, ler o outro texto, e se quiser, voltar aqui).

Bom, talvez realmente a marcha não seja o melhor lugar para se discutir o assunto, mas o fato é que  é preciso discutir e muito esse assunto. Profundamente. Na verdade, o grande mérito da marcha é trazer isso à tona. Com a marcha vieram os comentários em torno da palavra vadia, ou vagabunda,  e seu uso tão machista e retrógrado. De como é sintomático o fato de de tal teor pejorativo estar associado a uma tentativa de controle absurda sobre nossos corpos, sobre nossas vidas. E há quem não perceba, há quem diga que não existe machismo, que não há mais desigualdade de gênero, que somos livres e que o feminismo é coisa de mulher-macho e suas pautas ultrapassadas. Ora, caras amigas, quem dera as pautas feministas já estivessem ultrapassadas e não houvesse mais a necessidade de uma marcha desta ou de outras manifestações relacionadas ás questões de gênero. Mas já está mais do que na hora de abrir o olho e jogar fora as ilusões que nos fizeram acreditar que o machismo acabou ou que não é tão nocivo hoje quanto sempre foi.  Machismo fere, machismo mata. Machismo se esconde em pequenas ações que são tão comuns que nem sempre conseguimos perceber o tamanho do machismo que carregam.  Tem machismo até nas promessas de liberdade. Há mulheres que acreditam que a liberdade sexual completa existe. Pois bem, espere que o Papai Noel a traga pra você ou entre na luta, porque você está sendo enganada.

Lembra do comentário machista dos CQCs sobre amamentação em público? Sintoma! Quer dizer que mostrar os peitos pra macho ter fantasia sexual pode, alimentar a prole e estragar a fantasia, não! Assim como em revista, novela, filme e BBB, tem um monte de coisa que é legal: transar com desconhecidos, ser “liberada”, usar roupas sensuais, falar palavrão, entre tantas. Ah, mas a minha irmã, namorada, mãe fazer uma coisa dessas, jamais! Ela não é vadia!

Violência sexual tem que ser debatida com urgência e seriedade. Mulheres são agredidas todos os dias, física e verbalmente. E nem precisam usar saia curta pra isso. Alias, em geral não precisam nem sair de casa. É isso que tem que ser visto, dito e combatido.

Violência Sexual é muito mais que o estupro. Que obviamente é a pior de todas, mas não a única. Marido que chega em casa, bêbado ou não, e obriga a mulher a fazer sexo porque é obrigação de esposa estar disponível todos os dias, está cometendo um estupro também. É violência sexual sim. E para você, mulher moderna que acha que isso só acontecia no tempo de sua vó: Acorda,  Bela Adormecida!  Vai para a periferia para ver o tempo da sua vó acontecendo em diversos âmbitos. Quanto mais baixa a camada social, mais machista e violenta. Isto porque controlar a mulher, a força reprodutiva, manter as estruturas como estão, facilita as classes dominantes a manterem o status quo. Pobres cheios de filhos garantem reserva de mercado, e garantem que os pobres continuem pobres.  Machismo atravessa a luta de classes e oprime as mulheres, de maneiras distintas, em todas as classes.

Assédio sexual também é violência. E não é só no trabalho. Qualquer tipo de assédio sexual é constrangedor. Seja lá onde for. Venha de quem vier. A maioria dos homens não percebe que “cantadas” não são lisonjas. E não é que não se possa mais flertar, mas vamos ter um pouco mais de sensibilidade. Há muitas maneiras de se fazer isso sem ser invasivo. Sorrir e ser amiga não é sinônimo de querer ser assediada. Mas o pior mesmo é o assédio de estranhos na rua. Isso sim é uma baita violência. Você está na rua tranquila e tem lá um babaca que acha que pode te chamar de gostosa, te convidar pra dar uma voltinha e lá vai mais baixaria. Sempre digo que deveríamos ter o direto de responder a esse tipo de agressão com pedradas. Só assim talvez os homens entendessem o tamanho da  violência que eles nos impõe com estas atitudes. E não venham me dizer que mulher gosta, que isso ou aquilo, e que isso é exagero, porque não é. Qualquer afirmação contrária é manifestação de machismo sim, assim como a piadinha imbecil do Rafinha Bastos.

Enfim, acho que neste sentido a Marcha das Vadias abriu um espaço, principalmente na mídia (tradicional ou alternativa) para uma discussão importantíssima e urgente. Tragam à tona os casos, os números, quebre-se o silêncio, a vergonha e os tabus e vamos combater o machismo e a violência sexual.

Lembrando sempre que roupa curta, álcool, liberdade sexual, compromisso, amor e tesão. Nada disso é convite  para estupro ou qualquer tipo de violência sexual.

 





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