02
jan
10

Começando o Ano com o velho Maiakósvi

A FLAUTA VÉRTEBRA

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História. 
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

(tradução:  Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

FRAGMENTOS

1

Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso

2

Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama

3

O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano

4

Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo

5

Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.

(tradução: Augusto de Campos)


30
dez
09

Que venha 2010…

Inevitável fazer aquele balanço no fim do ano sobre o que foi o ano que passou. E eu realmente quero dar adeus a esse ano de uma vez.

De maneira geral, só me agradam as sementes que plantei para o próximo ano.

Pensando nos próximos planos, vieram à tona os planos que abandonei um dia. Por isso resolvi postar este vídeo, lembrando o tempo que eu via esse filme e queria estar ali. Quando o ano 2000 era uma coisa tão distante…2010 então, nem cabia na imaginação…

“and I don’t know how I ever thought that I could make it all alone
when you only make it better
and it better be tonight”

(…)

“and I don’t know where I ever got the bright idea that I was cool
so alone and independent
but I’m depending on you now
and you’ll always be the only thing that I just can’t be without
and I’m out for you tonight
I’m comin’ out for you tonight”

26
dez
09

Terapia Intensiva

Frank Sinatra e Tom Jobim. Os melhores terapeutas que já conheci. ( Para casos extremos, chamar o Sr. Jonnhy ou o Sr. Jack para dar reforço. Também conhecidos, respectivamente, como Mr. Walker e Mr. Daniels.)

Fly me to the moon and
Let me play amoung the stars
Let me see what spring is like
On jupiter and mars

In other words, hold my hand
In other words, baby kiss me
Fill my heart with song and
Let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adoreIn other words, please be true
In other words, I’m in love with you
Fill my heart with song and
Let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adoreIn other words, please be true
In other words
In other words,
I, I love, I love you

24
dez
09

A solidão não mata…

dá a idéia….( Alexandre França)

22
dez
09

Cassandra

Cassandra


É meu destino… Vou, então, chorar lá
dentro por mim, por Agamêmnon… Basta desta vida!
(Cassandra encaminha-se novamente para o palácio, mas torna a recuar.)
Ai, estrangeiros!… Não recuo sem motivos
como se fosse frágil pássaro medroso.
Apenas peço-vos que após meu triste fim
testemunheis no dia predeterminado
a morte aqui por mim, mulher, de outra mulher
e o mesmo fim de um homem para desagravo
de outro homem morto agora pela própria esposa.
É esta a minha súplica na hora extrema.


Corifeu
Ah! Infeliz!… Lamento a sina que prevês…


Cassandra
É meu desejo ainda declarar-vos algo.
Não vou agora começar um canto fúnebre;


imploro ao Sol, diante desta luz mortiça,
que dê aos inimigos fim igual ao meu,
aos assassinos de uma escrava, presa fácil.
É triste e sem remédio a sorte dos mortais…
Esboça-se a ventura em traços imprecisos;
os males chegam logo, como esponja úmida,
e num instante apagam para sempre o quadro.


(Entrando no palácio.)


É isso que me faz sofrer ainda mais!

(trecho de Agamemnon- de Ésquilo)

21
dez
09

balada de um catador de papel

balada de um catador de papel


um sísifo maltrapilho
ossudo qual cão-ninguém
mourejando, recolhendo
pra depois não ter o mínimo
com o qual ir comer bem.
este pulso aberto na urbe
num esfolamento diário
de cuja fé nascem urzes
bocas feitas pras migalhas
escorre por entre o trânsito
transido, retorto, em transe
buscando latas, papéis
nos garimpos das lixeiras.
ele dorme num depósito.
ele fede a mel da urina
e a fumaça das fogueiras.
de manhã como de tarde
trajando roupa de aniagem
(calça jeans, hering furada)
seca as bicas do semblante
e segue a azarenta viagem
segue a recolher aos montes
pelos cantos da cidade
o que é resto, rebotalho.
por dezessete centavos
o quilo do papelão
atravessa bairro e bairros
(a boca de pó, ressaibo):
um cristo sem vocação.
ele segue a via-crúcis
com a sua cruz-carroça
pelas ruas da cidade…
e quando, com andar futil
desce a pé alguma guria
de retoque e não-me-toque
(porque inda não usa antolhos
vai cuidando das calçadas)
ele murmura entre dentes
entre ajustado e incoerente
pois seu despeito não cala:

“eu não deixo pra mais tarde!
viu, eu sou sangue nos olhos
mas o peito é meu canteiro!
não me encare sem me ver!
eu me queimo qual janeiro
moça, eu vou te recolher!

nunca tive quatro patas!
não sou infarto dos carros
não sou piolho de tráfego
nem a trombose das ruas!
não tenho culpa do atraso!
não sou bicho-de-goiaba
(ou bicho-de-pé, de-a-pé)
neste asfalto de viaduto!
não vim de podres condutos
infeccionar a paisagem!”

quando ele não é invisível
é um nó górdio na garganta
de quem quer ir impassível
de quem tem seu carro como
uma casa em movimento
quem cronometrando avança
quem kilometrando pisa
cuj´alma é de lataria
e o descaso, de cimento.
quantos dão a preferência
nas manhãs engavetadas
nas tardinhas entrevadas
para o carro da indigência?
quantos dão a preferência?
quantos, de fato, se inquirem:
quais são as suas histórias?
como, com tão pouco, vive?

pensamos mas esquecemos:
voltamos a nos coçar
com nossas íntimas pulgas…
em programas de tevê
em rodadas de cacheta
em sessões de pedicuro
pisa-se o bicho-da-culpa.

mas entre a favela e o centro
ao sol que apodrece, lento
mourejando, recolhendo
pra depois não ter o mínimo
com o qual ir comer bem
o sísifo maltrapilho
agora carrega um filho


ossudo qual cão-ninguém

Rodrigo Madeira

do livro Pássaro Ruim

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17
dez
09

Aguardente que não sacia…

Porque as tardes chuvosas hão de ser tardes de Chico…

O que será (À flor da pele)

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar

E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá

O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia

Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

13
dez
09

Fernando e Paulo

Fernando Pessoa (reservo-me o direito de tê-lo como meu poeta favorito, sem sombra de dúvidas), na voz de Paulo Autran ( o qual me reservo o direito de crer ser o melhor para efetuar tal tarefa)…

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis, 12-6-1914

11
dez
09

L’amour est enfant de Bohême

Diva Absoluta…Maria Callas interpreta Carmen. Minnha favorita, diga-se de passagem. Aliás, confesso que, seja na literatura, na ópera, ou no cinema, eu amo quando elas morrem no final.

Habanera – (da ópera Carmen – Bizet)

Quand je vous aimerai?
Ma foi, je ne sais pas,
Peut-être jamais,
peut-être demain.
Mais pas aujourd’hui,c’est certain.

L’amour est un oiseau rebelle
Que nul ne peut apprivoiser,
Et c’est bien en vain qu’on l’appelle,
S’il lui convient de refuser.
Rien n’y fait, menace ou prière,
L’un parle bien, l’autre se tait;
Et c’est l’autre que je préfère
Il n’a rien dit; mais il me plaît.
L’amour! L’amour! L’amour! L’amour!

L’amour est enfant de Bohême,
Il n’a jamais, jamais connu de loi,
Si tu ne m’aime pas, je t’aime,
Si je t’aime, prend garde à toi!
Si tu ne m’aime pas,
Si tu ne m’aime pas, je t’aime!
Mais, si je t’aime,
Si je t’aime, prend garde à toi!
Si tu ne m’aime pas,
Si tu ne m’aime pas, je t’aime!
Mais, si je t’aime,
Si je t’aime, prend garde à toi!

L’oiseau que tu croyais surprendre
Battit de l’aile et s’envola;
L’amour est loin, tu peux l’attendre;
Tu ne l’attend plus, il est là!
Tout autour de toi vite, vite,
Il vient, s’en va, puis il revient!
Tu crois le tenir, il t’évite;
Tu crois l’éviter, il te tient!
L’amour, l’amour, l’amour, l’amour!

L’amour est enfant de Bohême…

11
dez
09

Nota sobre o prazer…

auto-retrato fase proto-fotoiliadahomerica.

Sobre o prazer que me dá abri um livro qualquer , e além daquela sensação soberba que creio ser comum aos amantes da literatura, ou melhor dizendo, das leituras em geral – e aqui caberia a nota da nota: me refiro aos amantes mesmo, não os simplesmente amigos. Para encontrar o exato sentido da diferença entre ambos, pense no prazer que você tem com seus amigos e no prazer que tem com seus amantes. – quando além de um texto excelente, minha cabeça de imediato consiga associar a uma imagem que parece que nasceu pra andar com ele. Se for uma imagem captada por mim, melhor ainda. Fica aquela sensação de algo vaticinado, mas um vaticínio cujos sinais só agora foram interpretados. Não menos interessante é se apropriar e desvendar os vaticínios alheios. Imagens capturadas ou corporificadas por tão diversos meios. E entre uma interpretação ou mesmo uma reinvenção de uma obra ou outra, ficar imaginado em versos isto que agora vos conto em prosa, e outros tantos devaneios associativos que imaginação sugere.

O inverso também é da mesma intesidade. Um prazer que não se importa com nenhuma ordem e existe seja qual for o sentido.  Buscar outros vates que já teriam em palavras antecedido à criação tátil daquela imagem. Igualmente lírico. Igualmente prazeroso.  Acho que só por isso este blog ainda existe.