O amor saiu pra comprar cigarro e nunca mais voltou.

 

Saiu assim, vestido de maneira casual, como quem intenciona mesmo não ir muito além da esquina. Já faz um bom tempo que isso aconteceu. Estava sorridente, cheio de planos e promessas e saiu dizendo que voltava rapidinho. Que era o tempo botar a mesa pro jantar.

 

No começo veio a preocupação. O amor não mente. Só pode estar encrencado. Ou ferido. Quem sabe teve um ataque cardíaco com aquele coração tão grande. Quem sabe foi atacado pelo ciúme numa rua escura. Por noites e mais noites andei a sua procura em hospitais, IMLs, sanatórios e valas por aí afora. Nem sinal.

 

– Ouvi dizer que foi visto no futebol.

 

Ah, então foi isso. O amor foi comprar cigarros, encontrou os amigos, tomou umas cervejas e foi pro futebol. Logo volta. O amor sempre volta, não é?

 

Coisa estranha essa. Podia ter avisado. Mas o amor é assim mesmo, acho. Ele confia. Quem confia espera confiança. O amor deve estar me testando.

 

Sentei-me frente à soleira da porta e os dias foram indo embora. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a saudade já estava fervendo a água e preparando o mate. Vez em quando batia palmas em frente o portão a desconfiança. Mas a esperança, que a esta altura tomava conta da casa, não a deixava entrar. E vinha com um discurso muito bonito sobre as tantas virtudes do amor e de tantos casos onde a desconfiança destruiu, ou quase, os mais belos relacionamentos. Quando estava quase a perder na argumentação apelava os mitos gregos. Aí não havia quem discutisse, diante do vôo do Cupido, ferido pela desconfiança de Psiquê. Até a razão abandonava o recinto, completamente sem argumentos.

 

Numa noite chegou um bilhete. “Volto logo”.

A razão calou-se. A Esperança propôs uma festa. Flores e doces para todos os lados. Muita bebida, muito alvoroço. A desconfiança achando melhor não investir em coisas perecíveis, a saudade a perfumar-se na espera de morrer gloriosamente. A solidão à espreita.

 

O amor saiu pra comprar cigarro e até agora não voltou

 

Disse que demorava o tempo de se colocar a comida na mesa. A comida já estragou. A festa não aconteceu. As flores já murcharam , os doces, a solidão devorou.  A desconfiança ganhou espaço, a saudade ficou violenta  e tenta me sufocar enquanto durmo. A razão me bate quando percebe meus olhos molhados. A esperança adoeceu.  Parou de se alimentar, e tornou-se muito dramática, um tanto chantagista. Não me deixava chorar, pois dizia que era maldade minha e agravava sua doença. Mas a tristeza me ensinou a esconder minhas lágrimas em filmes, livros e músicas. Chorar minha história na história dos outros.

 

Certa noite, a desconfiança juntou-se a raiva e ambas me convenceram a sair à sua procura novamente. Levava comigo uma navalha afiada e rezava, fervorosamente, para encontrá-lo em algum bar fedendo a perfume barato para acabar com ele antes mesmo que ele pudesse sorrir. O amor às vezes é tão cruel que é preciso arrancar-lhe a crueldade da cara a navalhadas. E marcá-lo, para que ninguém no futuro pense que ele é verdadeiro. Não o encontrei. Voltei para casa cansada, semanas depois, acompanhada da decepção. Fui recebida com um sorriso aliviado da esperança, que a esta altura já estava até mais corada.

 

Mais tarde, muito mais tarde, veio a notícia que estava apostando em mesas de poker e cavalos. Soube que apostou em uma égua azarona e que com ela ganhou um bom dinheiro por um tempo. Então certa noite ele resolveu apostar todas as fichas que tinha na tal égua que tantas corridas ganhou por ele. Ela perdeu a corrida. Deliberadamente por conta de outro apostador que pagou uma comissãozinha por fora.

 

E ele  já não podia voltar. Não sobrou nem para o cigarro.

 

Como voltar? O amor sabe ser cara de pau só quando não precisa. O amor não sabe admitir que fez escolhas erradas. O amor coloca a culpa no destino, sempre que possível. Ele é bom quando quer. O amor esconde sua monstruosidade num sorriso. O amor tem mil faces.

 

Todo amor é assim, meio Dorian Gray.

 

Faz tanto tempo que o amor saiu pra comprar cigarros e não voltou mais, que até o dono da venda já morreu. Eu sei porque acompanhei com o olhar seu cortejo passando aqui em frente. Sentada na varanda, lendo um romance oitocentista, ouvindo Ella Fitzgerald, ao ver aquele caixão passar, senti uma súbita inveja. Olhei para a esperança sentada ao pé de mim, costurando com a saudade uma estúpida colcha de lembranças e pensei:

-Feliz esta aí que está enterrando seu amor. Eu queria poder enterrar essa maldita esperança que não morre. Ela e sua corja.

 

E então uma lucidez impressionante tomou conta de mim. Olhei ao meu redor. Que situação deprimente, que casa escura, feia, e cheia de visitas indesejáveis!

 

-As comadres vão ficar aí de prosa pelo resto da vida? Podem ir dando o fora da minha casa. Levem as velas, o choro e tudo mais. Levem o blues e os sambas de tristeza, os poemas nostálgicos.

 

Vou buscar uma flor para colocar de  cabelo. E antes de sair, pelo menos me façam o favor de abrir as janelas e me passar a roupa de domingo. Depois, podem me esquecer.

 

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