A Importância do Questionamento Teórico Na Construção das Poéticas Contemporâneas.

Quando o rubor de um sol nascente caiu pela primeira vez no verde e no dourado do Éden

Nosso pai Adão sentou-se sob a Árvore e, com um graveto, riscou na argila;

E o primeiro e tosco desenho que o mundo viu foi um júbilo para o coração vigoroso desse homem.

Até o diabo cochicar, por  trás da folhagem, “É bonito, mas será Arte?”

 

(Rudyard Kiplin)

Diversas dúvidas se apresentam a todos que se interessam mais demoradamente pela produção contemporânea em arte- mais especificamente em artes visuais – seja por simples curiosidade e deleite da experiência do fruir arte e do colecionar, ou pelo envolvimento profissional com a mesma, que além da produção artística, também abrange a arte/educação, a crítica de arte e a comercialização. Certamente cada uma destas atividades traz em si níveis distintos de questionamentos, bem como diferentes níveis de necessidade em aprofundar-se em uma ou mais especificidades de conhecimento teórico/prático. De qualquer forma, é uma característica intrínseca à arte contemporânea esta necessidade de se pensar e repensar, este questionamento que vai com ela a qualquer lugar e a torna o que é, ou o que pretende ser.

Em primeiro lugar, é preciso pensar no que é arte contemporânea, onde estão seus limites, suas características básicas, que compõe o roteiro de leitura mental que nos faz olhar uma obra e dizer que o que é visto ali é uma obra de arte contemporânea. Ora, o termo “contemporâneo” tem um significado bastante claro, que pode nos fazer afirmar sem dificuldade alguma que todo objeto artístico produzido hoje é arte contemporânea. Certamente isto acaba sendo um conceito deveras simplista e que corre o risco de nos levar à discussão infrutífera do “tudo é arte/nada é arte”. Aí já vemos claramente a necessidade da sustentação teórica que pode então nos ajudar a sair deste embate tautológico. Isto significa que lendo este ou aquele autor eu poderei conhecer e entender completamente a arte contemporânea? Certamente a resposta é não.

O aprofundamento teórico, especialmente o produzido e debatido coletivamente não nos dará este roteiro de como conhecer e entender arte contemporânea justamente porque uma de suas características principais é que ela não se enquadra em roteiros específicos, em fórmulas teóricas, em práticas e técnicas pré-determinadas. Não delimita tempo, tema, espaço, suporte. Não cabe em regras, manifestos, escolas com características delimitadas. Mas isto não nos autoriza, por outro lado, a dizer que a ela qualquer coisa serve, muito menos apontar dedos inquisidores sobre este ou aquele artista porque em nossas convicções esta ou aquela técnica, este ou aquele tema não cabem na arte contemporânea. Produzir nos dias de hoje também não é sair em busca do novo. Já no início do século XX, o poeta russo Maiokoviski versava que “nada de novo há no rugir das tempestades”. E porque haveríamos de reinventar rodas justamente agora.

Mas o que é arte atualmente, então?

Muito além da busca pela autonomia do artista que se via na arte moderna, a arte contemporânea, que assim chamamos por falta de um termo melhor, recoloca o artista no mundo, e num mundo onde a palavra chave é a diversidade. Diversidade de temas, de questionamentos, de técnicas, de conceitos. Tal diversidade que tornou pequeno demais o termo “artes plásticas” e a este se precisou dar um espaço maior para abranger manifestações não-táteis, não plásticas, como a performance, a vídeo-arte, a body-art , os happenings e tantas outras linguagens que foram abraçadas pelo conceito de “artes visuais”. E ele ainda é pequeno. E gera equívocos imensos, como tantas outras questões na contemporaneidade da arte.

Vejamos alguns exemplos, considerados pelos críticos como os grandes artistas deste começo de século. Olafur Elisson extrapola os limites das galerias trabalhando com intervenções de gigantescas proporções em espaços urbanos, como, por exemplo, na obra “The New York City Waterfalls”, onde o artista inseriu cachoeiras enormes em cima de prédios, embaixo de grandes pontes, e outros lugares onde jamais se pensaria uma cachoeira, buscando fazer com que os cidadãos passassem a perceber de outra maneira o seu entorno, questionando a vida moderna que faz com que estejamos alheios até mesmo aos lugares onde passamos diariamente. Inversamente, a brasileira Renata Lucas insere um jardim dentro da Tate Modern Galery, questionando a esfera pública e privada de se pensar a natureza. A chinesa Ai Wei Wei, utilizando-se de um processo considerado bastante moderno em comparação com a tradição milenar de algumas técnicas, que é a fotografia, critica as construções modernas expondo fotografias de portas e janelas antigas, de feitio artesanal de casas das dinastias Ming e Qing, enquanto Damien Hirst organiza seu próprio leilão, subvertendo toda a lógica do mercando, passando por cima dos marchands e transformando a comercialização da arte em espetáculo.

Alguém poderia, por acaso, acusar o artista africano Yonamine por usar Basquiat e Warhol como referência para suas pinturas e colagens? Ou o coletivo Assume Vivid Astro Focus por promover festas psicodélicas em lugares como o Museu de Arte Contemporanea de Los Angeles e chamá-las de performance? Ou Takashi Murakami por produzir pinturas e esculturas que chama de Toy Art? Não. E sim. E o que dizer da performance do coletivo Chelpa Ferro, que levou a catarse ao extremo ao destruir completamente um automóvel modelo Maverick na 25 Bienal de São Paulo?

A diversidade de possibilidades não nos exime da possibilidade de gostar ou não gostar de algo. Não é porque estes citados foram os eleitos da crítica que devem ser os eleitos pessoais de cada um de nós. O historiador de arte E. Gombrich nos diz que não há motivos certos ou errados para se gostar de uma obra, mas há motivos errados para não se gostar desta ou daquela obra. Nisto também reside a beleza da arte de nossos tempos.

Conhecer o processo histórico que trouxe o fazer artístico ao patamar onde ele se encontra, entender os processos produtivos da atualidade, os desafios, as características subjetivas, os significados, as regras, as definições, problemas, especificidades estéticas, debater coletivamente e confrontar tais conhecimentos com suas próprias práticas, é certamente uma forma de potencializar a própria construção poética, a prática educativa, ou qualquer outra forma de envolvimento que o sujeito possa ter com o fazer artístico. Por si só, um motivo mais do que justo para utilizar este poderoso instrumento, que é o questionamento teórico.

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2 pensamentos sobre “A Importância do Questionamento Teórico Na Construção das Poéticas Contemporâneas.

  1. Talvez a Arte Contemporânea seja “A Vida”. A vida vivida, a vida desejada, a vida sonhada, a vida detestada, a vida sofrida etc. a vida do homem. Talvez tenhamos o homem retratado, não mais os dogmas. E como o mundo é plural, multicultural, multifacetado, fragmentado, profuso, o que temos é o que vemos.

Diz Aí:

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