Tropa de Elite 2 – Ainda um osso duro de roer.

De fato, não é de hoje que o Brasil quer ser Hollywood. A produção cinematográfica desta época nos mostra que estamos longe de demarcar espaço no cinema de autor, no cinema crítico, de criar um espaço onde a produção brasileira possa fazer escola, a exemplo de Glauber Rocha, do Cinema Novo, ou criar uma linguagem específica e realmente nossa, que possa ser chamada de CINEMA BRASILEIRO.

Dentre todas as categorias de produção artística que travam uma pesada luta pelos poucos recursos financeiros destinados pelas diversas instancias do Estado ao fomento da produção cultural, é sem dúvida o áudio-visual a que leva a maior fatia do bolo. Diga-se de passagem, uma fatia significativamente maior. Há que se esclarecer também que estes recursos estão totalmente atrelados à recursos privados, afinal, a maior parte dos mesmos vem de empresas cujo valor  “doado” ao financiamento das obras previamente selecionadas pelos órgãos responsáveis (como o Ministério da Cultura) é deduzida do imposto de renda, quase que em sua totalidade. Além deste benefício, o patrocinador levará sua marca ao mundo a cada exibição (formal ou pirata) do dito produto cultural ao qual terá sua imagem atrelada.

Este ponto é fundamental nas relações produtivas e obviamente  interfere amplamente tanto no resultado das produções quanto na escolha do que será produzido. Afinal, não basta ter a aprovação do Ministério da Cultura. Este é só o primeiro passo. O pior é convencer seus patrocinadores em potencial a “investirem” em seu filme. Isto te parece muito diferente da política dos grandes estúdios de Hollywood e suas históricas restrições à criatividade de diretores?

Mas e a tropa de elite com isso? É o que você deve estar se perguntando. Calma, estamos quase lá. Antes de sermos tão específicos, vamos pensar no geral, no que temos produzido e que consideramos sucesso : Tropa de Elite, Cidade de Deus, Lula- O Filho do Brasil, Central do Brasil,  etc. O que a maioria deles tem em comum? Muita grana e uma imensa vontade de reconhecimento através de um discurso raso sobre os problemas sociais do país.

Em termos de linguagem, devemos admitir que existe  a  busca pelo apuro técnico, pela sedução imagética com alguns casos. Mas o discurso sempre peca pela mesma falta de comprometimento com a realidade  a que estaria pretensamente atrelado. Tropa de Elite é um grande exemplo disso. No primeiro, uma resposta fácil a um problema difícil de debater. A violência, o tráfico de drogas, a truculência policial. Um apelo iniciado em Cidade de Deus. Afinal, tem assunto mundialmente polêmico ligado internacionalmente ao Brasil como a guerra entre polícia e traficante cujo palco é o Rio Janeiro? Triste reformulação dos velhos estereótipos dos filmes de “mocinho X bandido” da indústria cultural americana.

Em Tropa de Elite (o primeiro) impera o fascismo. A discussão sobre o fato de que violência gera violência é jogada pra escanteio, e o imperativo é a matança. Como se uma limpeza étnica fosse capaz de acabar com o drama vivido nos morros cariocas. Em Tropa de Elite 2, dá-se um passinho levemente à esquerda. Já no trailler, a chamada “o inimigo agora é outro”, cria uma sedutora expectativa em todos aqueles que esperavam mais do primeiro filme. Em termos de linguagem cinematográfica, é realmente muito bem feito, e os recursos estéticos utilizados cumprem totalmente seu papel. As cenas de tensão com o BOPE invadindo a penitenciária são, neste quesito, o ponto mais alto do filme. Toda a tensão é preservada, e a fotografia, que faz uso de uma câmera que um tanto trêmula, faz com que você tenha um plano de visão que te coloca no meio de tudo, não como um observador, mas como alguém que está ali tentando não levar uma bala na cabeça. A câmera corre com os personagens e você sente como se você estivesse correndo também. Mas o recurso é aplicado com a sutileza necessária para não causar o efeito inverso, que é de parecer uma coisa mal feita. Aliás, creio que esta seja uma particularidade da produção que só pode ser notada no cinema mesmo.  E há outros recursos bastante interessantes que no conjunto tornam um filme de qualidade. É adrenalina pura do começo ao fim, de um realismo assustador.

O problema está na superficialidade com que o tema é tratado. Para o espectador mais politizado, fica claro o que está faltando e pode-se a partir dele criar discussões no mínimo interessantes. Porém, para o espectador médio, que é a maioria do público brasileiro, o tiro pode sair pela culatra, pois gera a falsa impressão de que a solução para o problema se dá de maneira simples. Ora, se são policiais e políticos corruptos os culpados pela guerra nos morros cariocas, bastava acabar com eles e viveríamos num paraíso, onde policiais sérios e honestos que acreditam no que estão fazendo, como o Coronel Nascimento comandassem máquinas de guerra como o BOPE, limparíamos o país e acabaríamos com a barbárie. E sabemos que não é bem assim. Falta discutir o fundo da questão, o que gera a violência, o que gera o tráfico, o que gera a corrupção, a pobreza, a pirataria, a falta de perspectiva, entre tantos outros problemas que assolam nosso país. Tropa de Elite se apresenta numa perspectiva um tanto “petista”, meio em cima do muro, onde se admite o problema, aponta-se os bodes expiatórios, mas não se vai a fundo na raiz do problema e continua-se, como tudo neste país que diz respeito às políticas públicas, tratando câncer com aspirina e paracetamol, tomando atitudes e fazendo cinema “pra americano e inglês ver”. Neste sentido, tropa de elite acaba sendo, ainda, um osso duro de roer.

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