Sexo, Literatura e Cinema.

Poderia seguir diversos caminhos para apresentar as idéias deste texto, que começou a nascer enquanto eu lia a introdução de “ A Distinção – Crítica Social do Julgamento” – de Pierre Bourdieu, mas vou tentar o mais sintético, sem entrar nas questões mais polêmicas a respeito do tema, que poderia ir pelo caminho da necessidade ou não de incluirmos o sexo  na arte em geral, mais especificamente na literatura, no teatro e no cinema, mas  prefiro pensar nas maneiras que encontramos para abordar o tema.

Que o sexo faz parte da vida, é fato indiscutível. Alias, é dele que provém a vida. De maneira geral, podemos dizer que todos gostamos, uns mais outros menos, seja de fazer, ou de ver, falar e ouvir sobre. O que diferencia um estilo de outro, certamente é o que chamamos de indústria cultural, aliada às intenções do “artista” com relação aos aspectos culturais que ele pretende enfatizar em suas narrativas.  Cada um serve-se da linguagem que mais atinge seu público e suas necessidades e interesses.

Tanto na literatura quanto no cinema, é tudo uma questão de linguagem.  Na literatura usamos palavras, que ordenas nos fazem IMAGinar a cena, ou seja, dar a ela uma sequência de imagens mentais.  Assim, pode-se descrever o ato sexual do mais romântico casal ou do maior dos clichês eróticos do mundo de maneiras absurdamente diversas.  Seja da maneira mais literal das revistas pornô tipo painthouse ou cartas da fórum, seja no erotismo rebuscado de Anais Nin, ou na sutileza literária de Eça de Queiroz, como podemos exemplificar neste trecho de Primo Basílio:

“Tomou um gole de champanhe e num beijo passou-o para a boca dela. Luísa riu muito, achou “divino”; quis beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.

Tinham tirado os pratos da cama; e sentada à beira do leito, os seus pezinhos calçados numa meia cor-de-rosa pendiam, agitavam-se, enquanto um pouco dobrada sobre si, os cotovelos sobre o regaço, a cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça lânguida de uma pomba fatigada.

Basílio achava-a irresistível; quem diria que uma burguesinha podia ter tanto chique, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre as mãos, beijou-lhos; depois, dizendo muito mal das ligas “tão feias, com fechos de metal”, beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. Ela corou, sorriu, dizia: “não! não!” E quando saiu do seu delírio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate; murmurou repreensivamente:

— Oh, Basílio!

Ele torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinara-lhe uma sensação nova; tinha-a na mão!”

Não há como negar que mesmo sem usar os chavões tradicionais, qualquer ser humano com vida sexual minimamente ativa, tenha entendido do que se trata e criado uma seqüência de imagens mentais para ilustrar os fatos.

E o que é a linguagem cinematográfica se não esta seqüência de imagens, pensadas sob a perspectiva imagética do diretor e apresentadas para o público? Desta forma, assim como cada escritor dispõe das palavras da maneira que melhor lhe convém, o diretor procura imagens que possam convencer mais ou menos o seu público dos sentimentos que acompanham seus personagens.

Não sou uma profunda conhecedora do tema, para aqui exemplificar todas as formas de se tratar o sexo no cinema. Alias, acho que é a primeira vez que paro pra pensar nisto com um pouco mais de seriedade.  Lembrando que não estou aqui discutindo o que é melhor ou pior, mas como cada linguagem tem sua função específica.

De qualquer maneira, quem é que nunca viu um filme pornô?  Em geral, todos seguem uma linguagem mais ou menos semelhante, onde fala-se pouco, há muita nudez e aqueles “close ups” , geralmente em contra-plongé, nas partes íntimas das pessoas, seguinto roteiros igualmente cansativos. Como disse, não vou entrar em méritos, ou deméritos, mas me parece que neste caso, podemos comparar a coisa com aquilo que citei anteriormente como literatura de painthouse. Particularmente, não vejo nesta linguagem nenhum potencial sentimental. Por mais que possamos enxergar o “íntimo físico” dos personagens, não se pode fazer qualquer outra consideração mais profunda em nenhum aspecto. Certamente intencional para quem não quer considerar mesmo nenhum aspecto sentimental e sim manter-se no prazer puramente físico. Não se pode chamar de “prazer estético” porque, falando sério, não é bonito, não é interessante, não causa catarse, não causa nada a não ser tesão instantâneo e pouco duradouro. E olhe lá.

Num segundo plano, o hollywoodiano, podemos encontrar um esforço um pouco maior em associar o ato à trama, não que muitas vezes não se perceba com clareza que algumas cenas são totalmente desnecessárias e até mesmo exaustivas, mas há que se lembrar de uma ou outra cena muito bem feitas. Inclusive umas que mostram muito pouco, e dizem muito. Ainda não chegamos à comparativas com a linguagem exemplificada por Eça de Queiróz, mas podemos dizer que Hollywood vai de Sheldon a Anais Nin, num tapa. Ou seja, do close no rosto e nas mãos dos personagens Jack e Rose, dentro de um carro na “garagem” de Titanic (aquela mãozinha dela no vidro é ultra clichê mas funcionou que é uma beleza pro público alvo do filme), até a cara de orgasmo de Sharon Stone em Invasão de Privacidade. Aliás, público alvo é a chave da produção cinematográfica.  Afinal, é preciso acesso a certos signos para fruição concreta da arte.  Neste caso, podemos dizer que quanto menor o acesso do público à determinados códigos mais rebuscados da linguagem cinematográfica, mais explícita deve ser a cena.

Agora vamos ao exemplo de sutileza e síntese, comparável ao trecho acima citado. Trata-se de uma cena do filme “ O Ilusionista”, de Neil Burger, com Eward Norton.

Note que a luz incide nos corpos de uma forma que mostra nada e tudo,  que leva o olhar a participar da cena e ser vouyer ao mesmo tempo. Uma luz cuja cor intensifica a dramaticidade do encontro dos corpos,  a descoberta dos corpos pelos personagens que estão juntos pela primeira vez, como ao mesmo tempo redescobre  com eles o sentimento que o tempo não apagou. Obviamente, pra você que não viu o filme, talvez não seja possível sentir com a mesma potencia de quem viu a trama do começo ao fim, tal qual a leitura do trecho da experiência de Luiza com o primo, mas há de se concordar que a cena em si é muito bem feita, mesmo para quem está fora de contexto.

Em suma, não há nada de muito grandioso para se concluir nesta reflexão. Ela é, na verdade, uma porta de entrada para uma nova maneira de se pensar sobre tudo isso, afinal, em geral, é algo que nos passa batido. Outras idéias, mais maduras, virão.

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