Resgates do Boteco + nova série: o retratista que eu queria ser.

Pra começar, tinha pensando em colocar um destes retratos na série de retratos que eu queria ter tirado. Mas, de fato, tenho que confessar que ela tem um certo tom de piada, e seria uma desonra misturar as coisas. De qualquer forma, Henri Cartier-Bresson não tem uma ou outra coisa genial. Ele é todo genial. Portanto merece inaugurar nova categoria, que diz muito mais a respeito da minha admiração por seu trabalho. Inclusive já não é de hoje que o trabalhado dele tem feito história na minha vida.

Esta semana, buscando na rede alguns e-books (acabei descobrindo milhões de versões digitais para livros importantes), me deparei com uma versão em .pdf de Tete-à-Tete, de Henri Cartier Bresson, com uma belíssima introdução do Gombrich (sim, o historiador de arte), que pretendo traduzir e disponiblizar em breve. De imediato pensei em escolher um retrato para postar aqui, mas esta tarefa é muito díficil, visto que o material é maravilhoso. Além disso, não são retratos muito conhecidos do público em geral, na sua maioria, e que merecem ser apreciados. Em suma, o livro é um deleite para os olhos.

Nesta curtição de apreciar o livro, lembrei de reflexões antigas, conversas com outros fotógrafos e outros artistas, em especial uma conversa que tive com meu amigo músico e fotógrafo Caio César, que resultou num texto da minha velha coluna no site Tô Puto, o Boteco Virtual, numa série onde eu e convidados discutíamos um determinado tema e eu ensaiava algumas conclusões (ou indagações) sobre o tema na coluna. Resolvi, então, resgatar uma parte deste texto e re-publicar aqui. Lembrando que nesta época eu e a fotografia estávamos apenas “começando a namorar”. Apesar do meu longo flerte com ela desde muito anos antes.

“A provocação que fiz no fim do outro texto foi que todo retrato é um auto-retrato. E discutimos longamente sobre isso. Primeiro, vale falar que auto-retrato é um tipo de trabalho que aparece muito na Arte Pós- Moderna ( odeio esse termo, mas na falta de outro tão amplamente conhecido), como por exemplo o trabalho de Cindy Sherman. É a conversa entre ela e o disparador automático, sobre as personagens que cria para o mundo. Foi a maneira que encontrou para contar sua histórias. Alías, Dennis Roche compara essa relação entre o disparador automatico e o auto-retratista, com um esporte, uma corrida contra o tempo. Mas para falar sobre isso com mais profundidade, prefiria passar a palavra pra Lilian, que ousou escrever uma monografia  a respeito. De qualquer forma, há no ar uma afirmação de que, mesmo o retrato tradicional, é um auto retrato. Tanto do retratado quanto do retratista. Porque de um lado temos alguém que se posta diante de uma camêra da maneira que quer ser visto, da maneira que se auto-retrataria, e por outro, temos o olhar do retratista, que nos conduz ao que lhe seduzira, ou até mesmo àquilo que dele está presente no outro. E ali os dois contam uma história, conduzem a uma emoção. Acho que apesar de estar registrando um instante, uma imagem que já existe, o fotógrafo também está criando e seu trabalho pode ser comparado ao do romancista, no sentido de que todo romance é uma criação imaginária sobre uma gama de verdades interiores do romancista. Como afirma Bachelard em seu ensaio sobre a imaginação da matéria, “quer queira quer não, o romancista revela o fundo de seu ser, ainda que se cubra literalmente de personagens. Em vão ele se servirá de uma realidade como uma tela. É ele que projeta essa realidade”. E no trabalho do fotógrafo, em especial o retratista, é um romance escrito sobre uma página que não estava em branco, mas que ele transforma na história que quer contar. E se vale da cumplicidade do retratado para isso, pois este também está passando pelo mesmo processo. E o que há de mais genial nisso é que tudo se passa em questão de segundos. ” (Boteco Virtual – 2006)

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3 pensamentos sobre “Resgates do Boteco + nova série: o retratista que eu queria ser.

  1. Oi Sarinha, pesquisando aqui sobre os autorretratos de Denis Roche com seu disparador automático me deparo com este interessante texto em seu blog, onde você fala: “Mas para falar sobre isso com mais profundidade, prefiria passar a palavra pra Lilian, que ousou escrever uma monografia a respeito”.

    Infelizmente não temos traduções dos livros de Denis Roche para o português ainda, e até o acesso a esses livros é limitado, porém temos “O Ato Fotográfico e Outros Ensaios” de Philippe Dubois que nos deixa o gostinho de seu amor ao trabalho do artista, principalmente no seu último capítulo em que se dedica a falar de sua obra e atribui a ela a experiência do precipício interior de Francis Ponge, considerando a metáfora do paradoxo do pedregulho e do abismo à própria imagem do funcionamento de Roche:

    “Roche: minha mancha cega, o ponto de ancoragem em torno do que há dez anos não cesso de girar, e dessa forma porque sei que sempre só poderei ser mais engolido por ela, ser despojado por ela, sempre já perdido, arrebatado, raptado. Resta-me, portanto, tentar voltar a fechar o pedregulho observando o objeto em sua opacidade fulgurante, suturar o abismo jogando o jogo da superfície. Para viver por mais alguns dias”.

    Vale à pena ler este livro.
    Suspeita a falar, pois sou realmente apaixonada por ele.

    Lilian Barbon

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