Medéia

“Das criaturas todas que têm vida e pensam, somos nós, as mulheres, as mais sofredoras. De início, temos de comprar por alto preço o esposo e dar, assim, um dono ao nosso corpo – mal ainda mais doloroso que o primeiro. Mas o maior dilema é se ele será mau ou bom, pois é vergonha para nós, mulheres, deixar o esposo (e não podemos rejeitá-lo). Depois, entrando em novas leis e novos hábitos, temos que adivinhar para poder saber, sem termos aprendido em casa, como havemos de conviver com aquele que partilhará o nosso leito. Se somos bem sucedidas em nosso intento e ele aceita a convivência sem carregar o novo jugo a contragosto, então nossa existência causa até inveja; se não, será melhor morrer.

Ainda dizem que a casa é nossa vida, livre de perigos, enquanto eles guerreiam. Tola afirmação! Melhor seria estar três vezes em combates, com escudo e tudo, que parir uma só vez! Mas uma só linguagem não é adequada a voz e a mim. Aqui tendes cidadania, o lar paterno as doçuras desta vida e a convivência com os amigos.

Estou só, proscrita, vítima de ultrajes de um marido que, como presa, me arrastou a terra estranha, sem mãe e sem irmãos, sem um parente só que recebesse a âncora por mim lançada na ânsia de me proteger da tempestade. (…)


Meu sofrimento é imenso, incontestavelmente, mas não considereis ainda definida a sucessão dos acontecimentos próximos. Pode o futuro reservar lutas difíceis para os recém-casados e terríveis provas para quem os levou às núpcias.

Ama, lisonjeei Creonte para o meu proveito e minhas súplicas foram premeditadas. Eu nem lhe falaria se não fosse assim, mas tão longe o leva a insensatez que, embora ele pudesse deter meus planos expulsando-me daqui, deixou-me ficar mais um dia. E neste dia, serão cadáveres três inimigos meus: o pai, a filha e Jasão, seu marido.

Vêm-me à mente vários caminhos para o extermínio deles, mas falta decidir qual escolherei. Incendiarei o lar dos noivos ou lhes mergulharei no fígado um punhal bem afiado, entrando a passos silenciosos na alcova onde está preparado o leito deles?

Mas uma dúvida me ocorre e me detém: Se eu for surpreendida traspassando a porta na tentativa de atingi-los com meus golpes rirão de mim, vendo-me morta, os inimigos. Melhor será seguir diretamente a via que meus conhecimentos tornam mais segura: Vencê-los-ei com meus venenos. Assim seja!  Estarão mortos! Mas que povo, que cidade me acolherá depois? Que bom anfitrião, abrindo-me seu território para asilo e a casa para abrigo, me defenderá? Nenhum! Então devemos esperar um pouco. Quando eu puder contar com um refúgio certo, consumarei o assassinato usando astúcia e dissimulação; e quando eu decidir, nada, nenhum obstáculo, me deterá.

Por minha soberana e que escolhi para ajudar-me – Hecate, que entronei no altar de minha gente – nenhum deles há de rir por ter atormentado assim meu coração! Quero que se arrependam de seu matrimônio amargamente, e amargamente se arrependam de sua aliança e de meu iminente exílio.

Vamos, Medeia! Não poupes recurso algum de teu saber em teus desígnios e artifícios! Chegou a hora de provar tua coragem! Não vês como te tratam? (…)

AMA

Já que me fazes estas confidências quero dar-te um conselho profícuo e tomar a defesa das humanas leis:

Desiste de levar avante esses teus planos!

 

MEDÉIA

Não pode ser de outra maneira!

 

AMA

Ousarás mesmo exterminar teus próprios filhos?

MEDÉIA

Matando-os, firo mais o coração do pai.

 

AMA

Mas sofres também!

 

MEDÉIA

Sofro! Mas sofro menos se ele não rir.

AMA

E tornas-te a mulher mais infeliz de todas.

Desiste, eu te suplico! Não os sacrifiques!

Onde em tua alma, onde em teus braços buscarás coragem para assestar ao coração dos filhos os golpes de uma audácia inominável? Como, volvendo o olhar para teus filhos, serás, sem lágrimas, sua assassina? Não podereis, diante de teus filhos prostrados, suplicantes, mergulhar em sangue tuas implacáveis mãos!

 

MEDÉIA

Deste momento em diante quaisquer palavras passarão a ser supérfluas.

Vai! Traze Jasão para cá!

Recorro a ti quando a missão requer pessoa confiável. “

 

Medéia – Eurípedes – Adaptação de Claudete Pereira Jorge

Direção: Marcelo Marchioro.

Atualmente circulando pelo estado do Paraná.

 

 

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