Dia Do Surdo – 26/09

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Sente-se num belo jardim numa tarde de Sol. Respire fundo, feche os olhos e transforme tudo em silêncio. No início um silêncio de paz e tranqüilidade, depois um silêncio tão forte que amedronta e que parece ser a escuridão tomando conta do mundo. Abra os olhos e perceba o tamanho da contradição entre o silêncio escuro e o Sol.

Para livrar-se desta sensação estranha você vai andar e procurar alguém pra conversar. No banco da praça você encontra um casal conversando. Mas que estranho, eles não param de gesticular! Eles são surdos, se comunicam por sinais que você não entende. Você pede desculpa e procura outras pessoas. Precisa falar com alguém, mas não encontra ninguém. Entra numa lanchonete e pede um copo de água. A pessoa te olha com estranhamento e faz mais gestos que você não entende. Você tenta explicar que quer apenas um copo de água, mas a jovem só entende que você quer beber algo e traz todas as bebidas disponíveis. Menos água.

Você resolve descansar, afinal a tarde está confusa. Mas é incrível, você não tem certeza sobre o caminho. Precisa perguntar a alguém, mas ninguém que você encontra consegue te entender. Ou falam idiomas estranhos, ou usam sinais que não fazem nenhum sentido.

Imagine a vida assim. Todos os dias em busca de ser compreendido. Procurando em meio à multidão alguém como você. E esse alguém não está na sua família, nem na farmácia, nem no mercado, nem na padaria. Ás vezes na escola, se encontrar uma para pessoas como você. Mas mesmo lá, você não consegue ser entendido.

Imagine que por ser diferente dos outros e não conseguir, muitas vezes, expressar o que sente e o que sabe, as pessoas te julgam incapaz. Imagine que alguém pode chegar em sua casa movendo os lábios freneticamente e levar embora os seus filhos sem que você possa entender porquê.

Pense como seria se seus pais não te compreendessem e você passasse o dia todo sozinho no quarto tentando entender o mundo, coisa que seria perfeitamente possível se alguém tentasse te entender e se comunicar contigo.

Lembre de quando você começou a aprender um novo idioma e achou tão difícil entender aquelas palavras estranhas,que mesmo quando você encontra um dicionário na sua língua materna para explicar, não vê sentido na sua ordenação, tão diferente daquela que você acostumou.

Imagine não ter língua materna.

Seguir, dia após dia, acompanhado do vazio do silêncio e da incompreensão.

Mesmo que você pense em todas essas possibilidades, mesmo que você, como eu, passe algumas horas entre surdos que se comunicam por sinais que você está tentando entender e não consegue, e aí sim, é como se VOCÊ  fosse o surdo, mesmo que qualquer um de nós tente, é impossível colocar-se, DE VERDADE, no lugar de um surdo.

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Eu tive a felicidade de passar algumas horas com um grande grupo de Surdos na confraternização anual que eles fazem em seu dia. Ali era eu a que não entendia nada a seu redor. E eles, felizes, reforçando sua identidade de surdos, pela qual  precisam lutar todos os dias. Enquanto conversavam, era como ver um filme sem legenda num idioma como o alemão, ou o chinês, que eu desconheço completamente. Mas ao sair dali minha vida voltaria (teoricamente) a ter a mesma rotina ( na prática, nunca mais será a mesma). Encontraria de imediato pessoas com as quais falaria e seria entendida. Alias nem precisaria ir muito longe.

Mas e eles? Como foi o dia seguinte? Novamente a mesma luta para ser entendido.

Querem levar o surdo pra escola regular, como se tudo se resumisse a um intérprete na sala de aula.

Mas e se pararmos de olhar nossos próprios umbigos, do alto de nossa grandeza de ouvintes e aprendermos LIBRAS?

E Se por um momento pararmos de nos achar os donos da normalidade, aos quais qualquer um que seja diferente deve se adaptar?

E se aprendermos a respeitar as diferenças?

E se abrirmos finalmente os olhos para o mundo real, onde vivem não só os surdos, mas tantos outros diferentes de nós e diferentes, como nós, entre si.

Onde vivem homens e mulheres que trabalham para manter o mundo em pé e muitas vezes não conseguem pão para manter-se de pé?

Quem pensa neles? Quem os ouve? Quem os vê?

Deficiente é aquele que não quer ver nem ouvir a realidade à sua volta.

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