Posts Categorizados ‘poesia

14
Ago
09

E então, que quereis…

Floripa_lagoa_sarissima_2007

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.


Vladímir Maiakóvski (1927)

Para ouvir na voz de João Bosco, seguido de Corsário:

João Bosco _ então que quereis/corsário

04
Mai
08

Maiakóvski


Lílitchka! (Em Lugar de Uma Carta)

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto —
um capítulo do inferno de Krutchokônin.
Recorda —
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração — aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez com zanga.
No teu hall escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consistas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
— duro fardo por certo —
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor de teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei ondes estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria a sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai mais com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos — rodopiante carnaval —
dispersarão as folhas de meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

14
Abr
08

Sorex e Minustah

Eu amo sorex
seus cabelos longos de mulher vermelha,

seu sorriso ardente, sua pele honesta,
suas superquadras verdes de cimento e lua.
Eu amo sorex
por cima das conjecturas e conveniências,
por cima das burocracias
e nomenklaturas,
dos papéis timbrados e dos ministérios,
do velado apoio ao capital de usura,
eu amo sorex.
Paulo Bearzoti (foto tirada na Casa da Claudete)
26
Mar
08

Quem Sou…

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Eu sou a moça da sombrinha, caminhando ao Sol com seu belo vestido, esperando, sonhando, a brincar com pétalas em seu eterno jogo de bem-me -quer…

Eu sou o olhar penetrante e as faces rubras de Apollonia…

Eu sou a mulher no camarote a ver a ópera, com os olhos marejados, sentindo cada acorde da sinfonia no fundo de sua alma…

Eu sou aquela que chora por Luíza e se exalta para defender a honra de Capitu…

Eu nunca fui Virgília, nem Cleópatra…

Eu sou a Teresinha, de um disco velho e arranhado, sempre a repetir a segunda estrofe…

Eu ainda quero ser “Aquela Mulher”…

Eu sou a menina que observa a chuva na vidraça, a desenhar bonecos de palito no vidro…A mulher que esconde a face embaixo do véu…

O beijo de Klimt, ou de Rodin…

A pequena suja a comer chocolates cheios de metafísica…

26
Mar
08

As Coisas

borges.jpg

Texto inspirado no poema “As Coisas” de Jorge Luis Borges

(induzido por Denise Stucchi)

A primeira coisa, e também a mais presente, é o rádio, e tudo que sai de dentro dele.
Dentro das gavetas da memória
Dentro das minhas preciosas caixinhas, dos meus biscoitos do tempo…
Tem uma mamadeira com careta em alto relevo, um agarradinho, uma fofolete
E a cuca (aquela que pega daqui, e pega de lá)
Tem a janela, o fogão de lenha
A porta, a escadinha
E o rádio.
Tem pôsteres de um ídolo, muitos discos, fitas e a cuca ( de farofa que minha mãe fazia)
E um outro rádio.
Uma carteira de marlboro, uma garrafa de vinho, um skate
Muitos discos, muitas fitas e o mesmo rádio

Todas as caixinhas e gavetas estão trancadas
E cada uma tem uma chave
Mas essa chave não é uma chave
Não como essas que as portas e cadeados têm.
È muito mais que uma senha qualquer
É uma música ou um CD, um vinil ou uma fita
Depende…
Ás vezes é difícil descobrir
Às vezes nem eu sei
Mas sem querer, quando alguém descobre a chave
a gaveta, ou a caixa se abre e as coisas saltam de lá como aqueles palhaços de caixinhas de surpresa.
Sai ursinho, sai flor, sai carro (um fusca cor de doce de leite que está em diversas gavetas)
Às vezes, sai até lágrima…