Posts Categorizados ‘poesia

11
Dez
09

Merecidamente Poético…

Uma luz naturalmente poética vinha da janela, quando em visita ao centro comunitário do Jardim Itaqui, Plínio nos falava sobre sua infância próxima aos primos: os poetas Haroldo e Augusto de Campos, que enquanto os outros preocupavam-se com a bola, já conheciam exemplarmente a cultura erudita.

A Extraordinária Aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no Verão na Datcha

(tradução: Augusto de Campos)

A tarde ardia em cem sóis
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava,
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato
E de manhã
outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!

E grito ao sol:
Parasita!
Você aí, a flanar pelos ares,
e eu aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!

E grito ao sol:
Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?

Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostra medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com a voz de baixo:
Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!

Lágrimas na ponta dos olhos
- o calor me fazia desvairar, eu lhe mostro
o samovar:
Pois bem,
sente-se, astro!

Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rosta,
etc.
E o sol:
Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.

O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
Gente é pra brilhar
que tudo o mais vá prá o inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.







14
Ago
09

E então, que quereis…

Floripa_lagoa_sarissima_2007

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.


Vladímir Maiakóvski (1927)

Para ouvir na voz de João Bosco, seguido de Corsário:

João Bosco _ então que quereis/corsário

04
Mai
08

Maiakóvski


Lílitchka! (Em Lugar de Uma Carta)

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto —
um capítulo do inferno de Krutchokônin.
Recorda —
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração — aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez com zanga.
No teu hall escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consistas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
— duro fardo por certo —
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor de teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei ondes estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria a sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai mais com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos — rodopiante carnaval —
dispersarão as folhas de meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

14
Abr
08

Sorex e Minustah

Eu amo sorex
seus cabelos longos de mulher vermelha,

seu sorriso ardente, sua pele honesta,
suas superquadras verdes de cimento e lua.
Eu amo sorex
por cima das conjecturas e conveniências,
por cima das burocracias
e nomenklaturas,
dos papéis timbrados e dos ministérios,
do velado apoio ao capital de usura,
eu amo sorex.
Paulo Bearzoti (foto tirada na Casa da Claudete)
26
Mar
08

Quem Sou…

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Eu sou a moça da sombrinha, caminhando ao Sol com seu belo vestido, esperando, sonhando, a brincar com pétalas em seu eterno jogo de bem-me -quer…

Eu sou o olhar penetrante e as faces rubras de Apollonia…

Eu sou a mulher no camarote a ver a ópera, com os olhos marejados, sentindo cada acorde da sinfonia no fundo de sua alma…

Eu sou aquela que chora por Luíza e se exalta para defender a honra de Capitu…

Eu nunca fui Virgília, nem Cleópatra…

Eu sou a Teresinha, de um disco velho e arranhado, sempre a repetir a segunda estrofe…

Eu ainda quero ser “Aquela Mulher”…

Eu sou a menina que observa a chuva na vidraça, a desenhar bonecos de palito no vidro…A mulher que esconde a face embaixo do véu…

O beijo de Klimt, ou de Rodin…

A pequena suja a comer chocolates cheios de metafísica…

26
Mar
08

As Coisas

borges.jpg

Texto inspirado no poema “As Coisas” de Jorge Luis Borges

(induzido por Denise Stucchi)

A primeira coisa, e também a mais presente, é o rádio, e tudo que sai de dentro dele.
Dentro das gavetas da memória
Dentro das minhas preciosas caixinhas, dos meus biscoitos do tempo…
Tem uma mamadeira com careta em alto relevo, um agarradinho, uma fofolete
E a cuca (aquela que pega daqui, e pega de lá)
Tem a janela, o fogão de lenha
A porta, a escadinha
E o rádio.
Tem pôsteres de um ídolo, muitos discos, fitas e a cuca ( de farofa que minha mãe fazia)
E um outro rádio.
Uma carteira de marlboro, uma garrafa de vinho, um skate
Muitos discos, muitas fitas e o mesmo rádio

Todas as caixinhas e gavetas estão trancadas
E cada uma tem uma chave
Mas essa chave não é uma chave
Não como essas que as portas e cadeados têm.
È muito mais que uma senha qualquer
É uma música ou um CD, um vinil ou uma fita
Depende…
Ás vezes é difícil descobrir
Às vezes nem eu sei
Mas sem querer, quando alguém descobre a chave
a gaveta, ou a caixa se abre e as coisas saltam de lá como aqueles palhaços de caixinhas de surpresa.
Sai ursinho, sai flor, sai carro (um fusca cor de doce de leite que está em diversas gavetas)
Às vezes, sai até lágrima…