Posts Categorizados ‘literatura

11
Jul
08

Tróia X Helena de Tróia

Infelizmente a foto não é minha. rs. Aproveitem pra ver o detalhe que passou batido para a produção.

Uma coisa é o sujeito pegar uma obra que ninguém conhece e adapatar como lhe convém. Mudar o que acha que o autor poderia ter feito diferente. Agora, quando se trata de um clássico da literatura, um dos alicerces da mesma, como é o caso da obra de Homero, é preciso um pouco mais de carinho e atenção para o que se faz. É respeito com o peso da obra, com as pessoas que estudam e conhecem a mesma.

O que foi feito em Tróia, dirigida por Wolfgang Peterson, com Brad Pitt no papel de Aquiles, é chato, mas aceitável. Afinal, trata-se de uma versão hollywoodiana, feita pra agradar quem quer ver um épico bem produzido e dane-se a fidelidade do roteiro. Mas respeitou-se o básico: a ira do Peleio Aquiles, principalmente.

Sumiram com a Criseida, e fizeram da Briseida uma sobrinha de Príamo. Criaram um casal que não exite: Aquiles e Briseida. No pálacio Helena e Páris, no acampamento a escrava e o guerreiro. Dois casais num filme só. Sucesso garantido, Hollywood adora romance. E esse é o ponto que mais incomoda quem conhece a Ilíada. Mas de resto, mantêm-se o mais importante. A guerra, a briga com Agamemnon, etc…

As outras modificações que incomodam são a morte de Patroclo, o sumiço de todos os outros heróis, como se só houvesse Aquiles na batalha e a ausência total dos deuses, os quais sabemos que na Ilíada determinam tudo o tempo todo.

Apesar disso, de maneira geral, é bom. Um grande épico, muito vem dirigido, bem relista em alguns aspectos, impecável em figurino, quantidade de figurante, batalhas, etc. E isso já vale alguma coisa, não te deixa com raiva.

O mesmo não se pode dizer a respeito de Helena de Tróia, de John Kent Harrison, e com roteiro de Ronni Kern. É daqueles que você se pergunta porque o sujeito disse que baseou num livro que ele provavelmente não leu, e se leu não gostou, porque mudou absolutamente tudo que pode. Alias, creio eu, que se alguém leu a Ilíada e não gostou é porque não entendeu. E nesse caso, o roterista só leu a capa do livro, se muito aqueles resuminhos que estão no início de cada canto em algumas edições.

Começa mais ou menos bem, contando a história do nascimento de Páris e do Pomo de Ouro ( meio sem explicar, mas conta). Depois, senta que lá vem a história. Quanta bobagem!

As piores são:

1. Aquiles bombadão e careca. (Alguém pode me dizer como Palas o agarraria pela flava coma se ele fosse careca?) É um completo demente, que como todos nesse filme, fica à sombra do Vanglorioso Avidíssimo Atrida. Amisíssimo de Agâmemnon. Sabe aquele bombadão da acadêmia? Tanto que matou Heitor com um golpe só, e por isso ficou arrastando o corpo e gritando: “um golpe só, um golpe só.” E o fez para defender o Atrida, porque Patroclo não existe nessa versão da história. Inclusive, vale ressaltar que, idependente do quanto da Ilíada o roteirista leu, certamente não leu os primeiros versos. “Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles a ira tenaz…” lembram? Aquiles lutou o filme todo.

2. O sacríficio de Ifigênia. É apresentada como a única filha de Atrida. Ainda uma criança. ( alguém me diz de onde vai sair o Orestes?)

3. Menelau é um bundão, Ulysses é um bundão e é vidente. Ele diz que precisam terminar a guerra porque a esposa não vai conseguir enrolar os pretendentes muito tempo com a história do tear .( poderia me perguntar se ele soube pelo celular ou pelo msn, caso o fato não tivesse ocorrido depois do fim da guerra). Alias, só tem bundão nesse filme. O cachê deve ter sido um horror para os heróis secundarios.

4. Cassandra é uma histérica insuportável.

5. O Duelo de Menelau e Páris. Essa é a pior parte. Se eu encontrasse o roteirista, diria: “confessa, vai, você chegou na metade do livro e cansou porque era muito grande, aí resolveu fazer qualquer coisa.” Quanta bobagem. O duelo é sugerido por Agâmemnon. O mesmo envenena a lança do irmão Menelau, que ao tocar o braço de Páris, o deixa doidão e tonto. Ele cai, e quando está para ser morto, vem a nuvem de fumaça. Nesse momento você está jurando que ele vai dar uma dentro, finalmente, o que acontece a seguir? Pasmem, Menelau senta ao lado de Páris e eles começam a bater papo!
Depois disso, Heitor chama o Vanglorioso Avidíssimo Atrida pra duelar, mas quem duela em seu lugar por livre e espontânea vontade é, pasmem de novo, Aquiles!

A essas alturas não dá mais pra enumerar a sucessão de bobagens. Só vale dizer que Helena vai até a tenda do Atrida pra se entregar, ele não aceita, mas depois vai atrás dela, então Páris mata Aquiles, Agâmemnon mata Páris, os gregos somem e o Cavalo aparece do nada.

Pra fechar com chave de ouro, o Atrida estupra Helena na frente de Menelau e quem aparece de manhã? Clitemnestra gentil que mata o marido em Tróia!

Eu não sei porque me dei ao trabalho de postar tudo isso. Acho que foi um surto de indignação por ver tanta bobagem, e uma tentativa de fazer com que os amantes da Ilíada não tenham a mesma decepção. É claro que eu esperava que tivesse algumas deturpações, mas tudo tem limite né.

Ah..ia esquecendo…o figurinho é uma merda..os figurantes são poucos e as naus gregas são tão poucas que a esquadra de cabral daria inveja aos caras.

esse é o Aquiles de Helena de Tróia

09
Jul
08

para ler a ilíada…

Preparando o feijão para acompanhar a Ilíada: a convidada Sissi, Paulo Ugolini, Rodolfo Brandão, e eu ( em terceira dimensão mostrando a cena pra você). O quarto membro do grupo Quatro Contra Tróia, Gustavot Diaz, pra variar, fugiu da camêra.

Falando na Ilíada, o nosso amigo e poeta Rodolfo Brandão prestou um grande serviço de utilidade pública, criando um blog no qual postou a Ilíada na íntegra. Sem notas. Mas aí já é querer demais, né? Mas tem vários links afins, que ajudam a buscar referências.

04
Mai
08

Maiakóvski


Lílitchka! (Em Lugar de Uma Carta)

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto —
um capítulo do inferno de Krutchokônin.
Recorda —
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração — aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez com zanga.
No teu hall escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consistas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
— duro fardo por certo —
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor de teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei ondes estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria a sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai mais com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos — rodopiante carnaval —
dispersarão as folhas de meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

30
Abr
08

A Divina Comédia

Dizem que quando alguém perguntava a Jorge Luis Borges se ele lia o que seus contemporâneos andavam escrevendo, ele costumava dizer “não, estou atrasados com os clássicos”. E quem não está? Eu, particularmente, confesso estar atrasadissíma. Mas, correndo atrás do prejuízo. Além da Ilíada, que tornou-se a minha grande paixão literária e objeto de estudos e trabalho pelos próximos dez anos, no mínimo, encantei-me nesse fim de semana pela grande obra de Dante Aligheri. Na verdade, um interesse que eu já tinha há muito, mas que ainda estava apenas no campo da vontade.

Porém, nesse fim de semana, quando descobri a tradução de Augusto de Campos para o Canto V, do Inferno, não pude me contar a correr e estudar a obra. Infelizmente, só temos uma tradução completa, em versos na Lingua Portuguesa, que é a do Xavier Pinheiro. As traduções do Augusto são muito melhores, mas ele traduziu apenas alguns cantos. Mas não desmerece a tradução do xavier, que apesar de não fluir de maneira tão brilhante quanto a outra, também segue a estrutura de Tersinas usada por Dante. Outro ponto que vale a pena atentar na tradução do Xavier são as notas, que são muitas e bem esclarecedoras, e uma introdução que dá boas explicações sobre a Dante e a Divina Comédia. Só isso já vale a leitura da obra.

Procurei o tradução do Canto V do Augusto pra postar aqui mas não encontrei. Segue um fragmento da tradução do Xavier Pinheiro. Nesse canto, Dante encontra-se num dos primeiros círculos do Inferno ( ver figura- n. 5), que é o círculo da Luxúria. O nome já diz tudo, né? Lá, os pecadores ficam girando eternamente no ar. Entre as varias figuras que lá se encontram, como Cleópatra, Helena, Páris e Aquiles, está Francesca de Rimini, que narra a sua história e de seu amante ao poeta.

CANTO V (fragmento)

Eis já começo da infernal geena
A ouvir os lamentos: sou chegado
Onde intenso carpir me aviva a pena.

Em lugar de luz mudo tenho entrado:
Rugia, como faz mar combatido
Dos ventos, pelo ímpeto encontrado.

Da tormenta o furor, nunca abatido,
Perpetuamente as almas torce, agita,
Molesta, em seus embates recrescido.

Quando à borda do abismo as precipita,
Ais, soluços, lamentos vão rompendo.
Blasfema a Deus a multidão maldita.

Ouvi que estão no padecer horrendo
Os que aos vícios da carne se entregavam,
Razão aos apetites submetendo.

Quais estorninhos, que a voar se travam
Em densos bandos na estação já fria,
Em rodopio as almas volteavam,

Ao capricho do vento, que as trazia.
De pausa não, de menos dor a esp’rança
Conforto lhes não dá nessa agonia.

Como nos ares longa série avança
De grous, que vão cantado o seu grasnido,
Assim no gemer seu, que não descansa,

Traz o tufão as sombras desabrido.
— “Mestre” — disse eu — “quais almas são aquelas
Que o vendaval fustiga denegrido?”

— “A primeira” — tornou Virgílio — “entre elas
De quem notícias ter desejarias,
Regeu nações, diversas nas loquelas.

“De luxúria fez tantas demasias
Que em lei dispôs ser lícito e agradável
Para desculpa às torpes fantasias.

“Semíramis chamou-se: o trono estável[2]
Herdou de Nino e foi a sua esposa.
Do Soldão teve a terra memorável.

“A morte deu-se a outra, de amorosa,[3]
Às cinzas de Siqueu traidora e infida;
Cleópatra após vem luxuriosa”.[4]

Helena vi, a causa fementida[5]
De tanto mal, e Aquiles celebrado
Que teve por amor a extrema lida.

Páris, Tristão e um bando assinalado[6]
De sombras me indicou, nomes dizendo,
Que à sepultura amor tinha arrojado.

A compaixão me estava confrangendo,
Dessas damas e antigos cavaleiros
Nomes ouvindo e mágoas conhecendo.

Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros[7]
Dois, que ali vêm, falar muito desejo:
Ao vento ser parecem tão ligeiros!”

“Hás de ter” — me tornou — “asado ensejo,
Quando forem mais perto; então lhes pede
Pelo amor que os uniu: virão sem pejo”. —

Quando acercar-se o vento lhes concede
A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas,
Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede”. —

Quais pombas, que saudosas de asas fitas,
Ao doce ninho, em vôo despedido,
Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas:

Tais saíram da turba, em que era Dido,
A nós as duas sombras se inclinando,
Tanto as moveu da voz o tom sentido!

— “Entre beni’no, compassivo e brando,
Que nos vem visitar por este ar perso,
Tendo nós dado o sangue ao mundo infando,

“Se amigo o Senhor fosse do universo,
Da paz aos rogos nossos, gozarias,
Pois te enternece o nosso mal perverso.

“Enquanto o vento é quedo, o que dirias
Havemos nós de ouvir atentamente;
Diremos quanto ouvir desejarias.

“Onde, a paz desejando, o Pado ingente
Com seus vassalos para o mar descende,
A terra, em que hei nascido, está jacente.

“Amor, que os corações súbito prende,
Este inflamou por minha formosura,
Que roubaram-me: o modo inda me ofende.

“Amor, em paga exige igual ternura,
Tomou por ele em tal prazer meu peito,
Que, bem o vês, eterno me perdura.

“Amor nos igualou da morte o efeito:
A quem no-la causou, Caína, esperas”.
Após tais vozes foi silêncio feito.

Daquelas almas as angústias feras
Em meditar amargo a fronte inclino
Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?”

Quando pude, falei: “Cruel destino!
Que doce cogitar! Que meigo encanto,
Precederam do par o fim maligno!” —

Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto:
“Teus martírios, Francesca, me angustiam,
Movem-me o triste, compassivo pranto.

“Quando os doces suspiros só se ouviam,
Como, em que Amor mostrar-vos há querido
Os desejos, que ainda se escondiam?” —

— “Não há” — disse — “tormento mais dorido
Que recordar o tempo venturoso
Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido.

“Mas porque de saber és desejoso,
Como nasceu a flor do nosso afeto,
Direi chorando o lance lastimoso.

“Por passatempo eu lia e o meu dileto
De Lanceloto extremos namorados;
Éramos sós, de coração quieto.

“Nossos olhos, por vezes encontrados,
Cessam de ler; ao gesto a cor mudara.
Um ponto só deu causa aos nossos fados.

“Ao lermos que nos lábios osculara
O desejado riso, o heróico amante,
Este, que mais de mim se não separa,

“A boca me beijou todo tremante,
De Galeotto fez o autor e o escrito.
Em ler não fomos nesse dia avante”.

Enquanto a história triste um tinha dito,
Tanto carpia o outro, que eu, absorto
Em piedade, senti letal conflito,

E tombei, como tomba corpo morto.

26
Mar
08

As Coisas

borges.jpg

Texto inspirado no poema “As Coisas” de Jorge Luis Borges

(induzido por Denise Stucchi)

A primeira coisa, e também a mais presente, é o rádio, e tudo que sai de dentro dele.
Dentro das gavetas da memória
Dentro das minhas preciosas caixinhas, dos meus biscoitos do tempo…
Tem uma mamadeira com careta em alto relevo, um agarradinho, uma fofolete
E a cuca (aquela que pega daqui, e pega de lá)
Tem a janela, o fogão de lenha
A porta, a escadinha
E o rádio.
Tem pôsteres de um ídolo, muitos discos, fitas e a cuca ( de farofa que minha mãe fazia)
E um outro rádio.
Uma carteira de marlboro, uma garrafa de vinho, um skate
Muitos discos, muitas fitas e o mesmo rádio

Todas as caixinhas e gavetas estão trancadas
E cada uma tem uma chave
Mas essa chave não é uma chave
Não como essas que as portas e cadeados têm.
È muito mais que uma senha qualquer
É uma música ou um CD, um vinil ou uma fita
Depende…
Ás vezes é difícil descobrir
Às vezes nem eu sei
Mas sem querer, quando alguém descobre a chave
a gaveta, ou a caixa se abre e as coisas saltam de lá como aqueles palhaços de caixinhas de surpresa.
Sai ursinho, sai flor, sai carro (um fusca cor de doce de leite que está em diversas gavetas)
Às vezes, sai até lágrima…