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01
Jan
09

Para passar a régua em 2008

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Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

17
Abr
08

Instantâneos de Felicidade

Foto do Mestre Henri Cartier-Bresson

Às Vezes

Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

Fernando Pessoa

27
Mar
08

Da Estagnação

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Numa dessas minhas crises de estagnação, de completa dificuldade de articular os pensamentos e tranformá-los em textos minimamente coerentes e interessantes, numa dessas minhas angústias particulares que me têm sido tão frequentes nos últimos anos, tive um momento em particular que merece ser aqui citado.

Talvez isso explique, em partes, porque eu desapareço de vez em quando. Não que eu realmente acredite que explicações nesses casos sejam necessárias, ou que venham a convencer alguém de fato. Para mim isso já está além do alcance, já virou metafísica. Mas esse momento, essa explicação em especial, só merece atenção porque traz à tona a minha forte relação com Fernando Pessoa, que é algo que faz tão parte de mim como meus cabelos ou meus cravos no nariz. Existe, é fato e não tem jeito.

A insônia tem sido uma companheira constante, mas não teve a ver com o dia em questão. Nesse dia que descrevo em particular, depois de uma noite não muito bem dormida devido a fatores externos como a falta de cobertor ( que é uma das poucas coisas capazes de impedir-me de cair em sono porfundo, além da insônia, é claro), acordei com a alma em desassossego total. Por sorte, olho treinado ou inspiração, o primeiro título entre os tantos livros que estavam à minha volta naquele momento a me chamar a atenção foi justamente o Livro do Dessossego, de Bernardo Soares ( o guardador de livros) – outro heterônimo do Pessoa.

Uma página havia sido marcada, não por mim, e também não tenho idéia de quem seja, mas chego a desconfiar que, dormindo ao meu lado, ou observando-me ao sono, fora o próprio Pessoa que o fizera, visto que o conteúdo parecia sair de dentro de mim e não o contrário, que é o comum ao lermos algo novo. Segue o trecho, para o deleite de todos:

[126]
Tenho grandes estagnações. Não é que, como toda a gente, esteja dias sobre dias para responder num postal à carta urgente que me escreveram. Não é que, como ninguém, adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é agradável. Há mais sutileza na minha desinteligência comigo. Estagno na mesma alma. Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias; só a vida vegetativa da alma – a palavra, o gesto, o hábito – me exprimem eu para os outros, e, através deles, para mim.
Nesses períodos da sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que algarismos, ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus atos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.
Assim se passam dias sobre dias, nem sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado assim. Às vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim, talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira; ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações, perante um mais íntimo pensar, um sentir mais meu, uma vontade perdida algures no labirinto do que realmente sou. Seja como for deixo que seja. E ao deus, ou aos deuses, que haja, largo da mão o que sou, conforme a sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido.

26
Mar
08

Quem Sou…

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Eu sou a moça da sombrinha, caminhando ao Sol com seu belo vestido, esperando, sonhando, a brincar com pétalas em seu eterno jogo de bem-me -quer…

Eu sou o olhar penetrante e as faces rubras de Apollonia…

Eu sou a mulher no camarote a ver a ópera, com os olhos marejados, sentindo cada acorde da sinfonia no fundo de sua alma…

Eu sou aquela que chora por Luíza e se exalta para defender a honra de Capitu…

Eu nunca fui Virgília, nem Cleópatra…

Eu sou a Teresinha, de um disco velho e arranhado, sempre a repetir a segunda estrofe…

Eu ainda quero ser “Aquela Mulher”…

Eu sou a menina que observa a chuva na vidraça, a desenhar bonecos de palito no vidro…A mulher que esconde a face embaixo do véu…

O beijo de Klimt, ou de Rodin…

A pequena suja a comer chocolates cheios de metafísica…