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| E o fogoso Pelides: “Sem rebuço, |
| Dial sangue e astutíssimo Laércio, |
| Declaro-te o que sinto, em que hei sentado; |
| Nem mais teimem comigo, nem me azoinem. |
| Qual do Orco as portas, abomino aquele |
| Que na boca desmente o oculto n’alma. |
| Descubro a minha: o Atrida não me dobra, |
| Nem outro Grego, a tanto esforço ingratos |
| O acre ou forte em conflito, o imbele ou frouxo |
| Quinhão parelho têm e as mesmas honras; |
| Têm o enérgico e o mole igual sepulcro. |
| Que tirei de cruéis padecimentos, |
| De infindos prélios, de hórridos perigos? |
| Ave sou, que afamada olvida as penas, |
| Pesquisando o cibato a implumes filhos. |
| Noites insones, sanguinários dias |
| Curti sem conto a contrastar guerreiros |
| Pelas mulheres vossas. Praças doze |
| Eu devastei por mar, onze por terra |
| Nessas veigas Troianas. Vim de alfaias |
| E espólios carregado, e à vista os punha |
| De Agamêmnon; que a bordo os ferrolhava, |
| E poucos repartia a reis e a cabos. |
| Estes os têm consigo: eu só dos Gregos, |
| Fui da querida minha defraudado… |
| Pois que durma e deleite-se com ela. |
| Por que esta guerra? O exército Agamêmnon |
| Por causa não chamou da pulcra Helena? |
| Atridas sós entre os falantes amam? |
| Ama a consorte sua o reto e probo; |
| Eu muito amava aquela, embora serva. |
| Arrancou-ma falaz: pois basta, cesse |
| De me tentar em vão. Contigo e os outros |
| Busque, Ulisses, as naus livrar do incêndio. |
| Sem mim já fez milagres, celsas torres, |
| Profundo e largo fosso e paliçadas: |
| Nem pode assim de Heitor suster o choque! |
| Do fero Heitor, que nunca, eu posto em campo, |
| Quis longe pelejar das portas Ceias, |
| Nem da faia passar! um dia apenas |
| Meu ímpeto arrostou; salvou-se a custo. |
| O herói não mais profligo; e na alvorada, |
| Assim que imole à corte e ao rei celeste, |
| Meus baixéis bem providos se o desejas, |
| Verás em nado, e o som da ardente voga |
| O piscoso Helesponto irem sulcando. |
| Com favor de Netuno, à luz terceira |
| Seremos nas de Ftia amigas várzeas. |
| Riquezas lá deixei, partida infausta! |
| Bronze e ouro do sorteio, airosas moças, |
| Ferro polido ajunto-lhes; que o dado |
| O magnânimo Atrida retomou-me. |
| Repete-lhe isto às claras ante os Gregos, |
| Por que todos se indignem, se impudente |
| Conta iludir algum. Protervo e ousado, |
| O descoco não teve de encarar-me. |
| Nem mais consulto, nem com ele trato: |
| Enganou-me ofendeu-me; é de sobejo. |
| De mim descanse; ao precipício corra, |
| Que o privou da razão previsto Jove. |
| Como a escravo o desprezo e os dons lhe odeio: |
| Nem que o décuplo e em dobro me ofertasse |
| Do que amontoa o cobiçoso espera, |
| Quanto Orcómeno importa, quanto a Egípcia |
| Hecatômpila Tebas entesoura, |
| Que, duzentos campeões de cada porta |
| Vazando, carros vinte mil despede; |
| Nem que prometa os mares e as areias, |
| Me há de acalmar, sem que me pague o insulto |
| Gota por gota. A filha, não lha quero, |
| Vênus fosse em beleza, em lavor Palas: |
| Aspire a genro de mais polpa e vulto. |
| A preservar-me o Céu, de Hélade e Ftia |
| Peleu me escolha algumas dentre as virgens |
| De príncipes colunas dos Estados, |
| E a que eu prefira me será consorte: |
| O coração me pede grata esposa, |
| Que se afeiçoe aos prédios meus paternos. |
| São à vida inferiores os tesouros |
| Que, antes do cerco, a populosa Tróia |
| Em si continha, e as do vibrante Febo |
| Da sáxea Pito do marmóreo templo: |
| Reconquistar podemos bois e ovelhas, |
| Trípodes e frisões de ruiva crina: |
| Mas do encerro dos dentes a alma nossa |
| Fora uma vez, não se recobra nunca. |
| A mãe déia argentípede o meu duplo |
| Fado abriu: se debelo a grã cidade, |
| Não regresso, mas compro glória eterna; |
| Se torno ao doce ninho, murcha a glória, |
| Terei velhice longa e fim tardio. |
| Os mais que voguem: não vereis o termo |
| De Ílio escarpada; o mesmo Altitonante |
| A mão lhe estende e exalta-lhe a coragem. |
| Ide anunciar aos próceres, Aquivos, |
| É dever de legados, que outro plano |
| Tracem de proteger as naus e as tropas: |
| Este falhou, persisto incontrastável. |
| Pernoite Fênix, e amanhã me siga, |
| Por gosto e não forçado, aos pátrios lares.”
Ilíada- Homero- tradução de Odorico Mendes |