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26
Out
09

O amor bate na aorta

Cupidon_et_Psyché- Jaques Louis David

Cupidon_et_Psyché- Jaques Louis David

Cantiga do amor sem eira nem beira,
vira o mundo de cabeça para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
Hoje tem filme de Carlito!

O amor bate na porta
O amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…::

Carlos Drummond de Andrade

15
Ago
09

Coisas de Maurício…

Trabalhinho maneiro do meu amigo Bibício, digo, Maurício Peixoto, guitarrista da banda Aerocirco…

Só pra descontraír…

10
Mai
09

Entre Mãe e Filho…

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Só, carpindo-se, Aquiles na espumante
Beira ficou-se; o ponto azul esguarda,
As palmas tende e à boa mãe recorre:
“De curta vida, ó Tétis, me pariste;
Sequer me engrandecesse o Altipotente;
Mas ele não me outorga a menor glória.
Em meu despeito o soberano Atrida
Arrebatou-me o prêmio e dele goza.”
Ao pé do anoso pai, lá no áqueo fundo
Sentiu-lhe o pranto a veneranda ninfa:
Da salsa espuma, como névoa, surde;
Conchegada ao Pelides lamentoso,
Com mão fagueira consolando o anima:
“Choras? que ânsia te aflige? Nada encubras,
Comunica-me, filho, as penas tuas.”
Do íntimo o celerípede suspira:
“Sabes; que val dizer-to? A sacra Tebas
De Eetion depredada, o espólio todo
Arrecadou-se, e em regra o dividimos:
Teve o Atrida a pulquérrima Criseida.
Remir a filha com riqueza imensa
Do Longe-vibrador veio o ministro
Às lestes naus de cobre encouraçadas;
Nas mãos faixa Apolínea e o cetro de ouro,
Roga e aos dous potentados mais se abate:
Que, em reverência ao cargo, se receba
O esplêndido resgate, áfio aprovam;
Menos o Atrida, que o repulsa e afronta.
Parte o velho indignado; e o deus que o ama,
Dele a instâncias, vibrou feral contágio,
De que a gente em cardumes fenecia,
Pestíferas as setas rechinando
Por todo o exército. Eminente vate
O oráculo solveu-nos; e eu primeiro
A apaziguar o nume exorto os sócios.
Furente ergue-se o rei, minaz fulmina,
E não debalde; que olhi-espertos Gregos
Em ágil nau Criseida reconduzem
Com pios dons, e arautos mesmo agora
Do pavilhão transferem-me a donzela
Que os Dânaos me doaram. Tu, que o podes,
Socorre o filho, ao grã Tonante ascende;
Se o já serviste com palavras e obras,
Hoje o depreca. A mim no pátrio alvergue,
De única blasonavas que entre os deuses
Preservaste o nubícogo Satúrnio
Do feio opróbrio, quando, à frente a esposa
E Minerva e Netuno, o encadearam:
Mas tu, madre, lhe acorres e o desprendes,
Convocas em auxílio o Centimano,
Que é nos céus Briareu, na terra Egéon.
Mais robusto que o pai, da honra altivo,
De Jove a par se teve, e de assustados
Os imortais do empenho desistiram.
Recorda-lhe isto, abraça-lhe os joelhos:
Que ajudar queira os Troas; que os Aquivos,
Té às popas e ao mar cerrados, paguem
Por seu tirano e a maldizê-lo expirem.
O amplo-dominador confesse a culpa
De insultar o fortíssimo dos Gregos.”
E em lágrimas a déia: “Ai! Filho, como
Te amamentei gerado em hora infausta?
Oh! se de mágoa ileso a bordo fosses!
Urge-te a Parca, e mais que todos penas:
Malfadado nasceste em régios paços.
Em paz, nas prestes naus, teu ódio ceves;
Que hei-de ao nevoso Olimpo ir ver se dobro
Quem se deleita com trovões e raios.
Ele e sua corte, às abas do Oceano,
De inocentes Etíopes desd’ontem
A mesa logram. No dozeno dia,
Ao voltar à mansão de aênea base,
Revolvida a seus pés tocá-lo espero.”
Nisto, sumiu-se-lhe e o deixou raivando
De o desfalcarem da mulher garbosa.

Ilíada – Canto I – fragmento- Tradução Odorico Mendes

23
Abr
09

Salve Jorge!

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  Hoje é Dia de São Jorge. O Santo mais legal que a Igreja Católica produziu ( e um dos mais antigos). Popular entre todas as camadas ( é patrono da Inglaterra, Portugal, Catalunha, entre outros,  e do Corinthians – isso que é diversidade!),  foi “demitido” pela Igreja Católica por ser muito pop ( mais que o papa!). Não há documentação sobre ele, só histórias. Teria sido perseguido e morto por ser  um tribuno romano que defendeu os cristão, e mesmo sendo torturado, continuou se declarando Fiel a Jesus! ( entendeu agora pq o Curintia né?). Existe uma história de que ele seria, na verdade, um exorcista e que a Igreja Católica começou a inverntar coisas mirabolantes a respeito, pra dar medo nas pessoas e o tiro saiu pela culatra.  E tem a parte mais legal , que são  as baladas medievais sobre ele. Uma delas é essa aqui: “Jorge era filho de Lorde Albert de Coventry. Sua mãe morreu ao dar a luz a ele e o recém nascido Jorge foi roubado pela Dama do Bosque para que pudesse, mais tarde, fazer proezas com suas armas. O corpo de Jorge possuia três marcas: um dragão em seu peito, uma jarreira em volta de uma das pernas e uma cruz vermelho-sangue em seu braço. Ao crescer e adquirir a idade adulta, ele primeiro lutou contra os sarracenos e, depois de viajar durante muitos meses por terra e mar, foi para Syle´n, uma cidade da Líbia. Nesta cidade, Jorge encontrou um pobre eremita que lhe disse que toda a cidade estava em sofrimento, pois lá existia um enorme dragão cujo hálito venenoso podia matar toda uma cidade, e cuja pele não poderia ser perfurada nem por lança e nem por espada. O eremita lhe disse que todos os dias o dragão exigia o sacrifício de uma bela donzela e que todas as meninas da cidade haviam sido mortas, só restando a filha do rei, Sabra, que seria sacrificada no dia seguinte ou dada em casamento ao campeão que matasse o dragão.

Ao ouvir a história, Jorge ficou determinado em salvar a princesa. Ele passou a noite na cabana do eremita e quando amanheceu partiu para o vale onde o dragão morava. Ao chegar lá, viu um pequeno cortejo de mulheres lideradas por uma bela moça vestindo trajes de pura seda árabe. Era a princesa, que estava sendo conduzida pelas mulheres para o local do sacrifício. São Jorge se colocou na frente das mulheres com seu cavalo e, com bravas palavras, convenceu a princesa a voltar para casa. O dragão, ao ver Jorge, sai de sua caverna, rosnando tão alto quanto o som de trovões. Mas Jorge não sente medo e enterra sua lança na garganta do monstro, matando-o. Como o rei do Marrocos e do Egito não queria ver sua filha casada com um cristão, envia São Jorge para a Pérsia e ordena que seus homens o matem. Jorge se livra do perigo e leva Sabra para a Inglaterra, onde se casa e vive feliz com ela até o dia de sua morte, na cidade de Coventry.”
23
Abr
09

Revelando Curitiba

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“Durante quatro dias militantes percorrem quase 100km na periferia da cidade

No feriado de Tiradentes (18 a 21 de abril) diversos militantes irão caminhar 94,6km para percorrer a periferia de Curitiba. A “Caminhada Revelando Curitiba” é uma iniciativa do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e deve congregar, além dos representantes do partido, militantes de esquerda ligados a outras organizações e partidos que compreendem Curitiba como uma cidade modelo em exclusão social e acreditam que a outra face da cidade deve ser revelada.

A idéia da caminhada é caminhar cerca de 25km por dia, com pausas para repouso em lugares pré-estabelecidos. Nestes locais ocorrerão debates sobre o modelo de cidade atualmente estabelecido. O início será no sábado às 7h no terminal Santa Cândida, na zona norte. O encerramento será em um bairro de trabalhadores em São José dos Pinhais, zona leste da cidade (clique aqui para ver o mapa com a rota em anexo).”

Esse foi o texto de convite para quem quisesse descobrir essa outra Curitiba, que está fora do modelo de desenvolvimento amplamente divulgado a respeito a nossa ” cidade modelo”. 

Além de conhecer e divulgar os problemas das comunidades que não fazem parte do eixo padrão, a ideia era, além disso, promover uma conexão entre as mesmas, para que possam reivindicar juntas por melhorias. 

Inicialmente, eu pretendia fazer o roteiro completo, mas encontrei algumas pedras que me impediram do mesmo. Acabei fazendo apenas um dia de caminhada, o segundo, indo do Sabará até a Cachimba, que em alguns momentos pareceu que não chegaria nunca.

Não foi nada fácil, mas valeu a pena. Nos deparamos com diversas coisas que pra mim eram completamente desconhecidas, e até mesmo para alguns colegas militantes, mais acostumados a circular pelas comunidades. 

Postarei aqui algumas fotos, minhas, e algumas do fotógrafo João Debs, que acompanhou a galera no primeiro dia, quando passaram pelo eixo estrutural e algumas regiões problemáticas.

Como temos muito material destes dois dias ( só o colega Debs me enviou mais de 80 imagens), e minha vida de universitária/proletária anda turbulenta, peço um pouquinho de paciência aos amigos pois o material vai chegar aqui aos poucos. 

Criei então essa abinha, específica para o material da caminhada. Só clicar aqui para ver.

03
Mar
09

Adiamento

Bárbara - de Gustavot Diaz - da série de fotos de estudos do artista

Bárbara - de Gustavot Diaz - da série de fotos de estudos do artista

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…

    Álvaro de Campos
18
Jan
09

Gaza

Antes de seguir com a minha lista de eleitos,  me sinto obrigada a tocar, mais uma vez, e agora com mais responsabilidade, no que elejo como a pior maneira de se começar um ano: com matança.

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Foto tirada da internet.

Não posso, de maneira alguma, me calar diante do que vejo. E vou usar um pouco esse espaço. Como esses conflitos entre palestinos e judeus são antigos, já deram muito pano pra manga e as informações (reais e sem manipulação da mídia)  são sempre díficeis, e também por respeitar o direito que os meus leitores e amigos têm de não querer ver e discutir isso também por aqui, criei uma aba, uma página específica para essas informações, para esses textos. Portanto, quem tiver interesse, basta procurar ali no cantinho direito.

09
Jan
09

2009

Deveria aproveitar esse inicio de ano tedioso ( como todos os outros, alias, pois sempre acho o mês de janeiro uma coisa muito estranha), para fazer algumas listas, tais como 150 maneiras de deixar de ser preguiçosa e postar coisas de verdade, com mais de duas frases. Mas deu preguiça.

Não sou muito de fazer essas listas de melhores e piores do ano,  porque sempre tenho a sensação de que esqueci alguém, ou que não fiquei tão antenada às coisas legais que apareceram no mundo, então deixo essa tarefa pros meus amigos jornalistas e internautas convictos (diferentes de mim que estou sempre visitando os mesmos espaços), pois certamente poderão executar melhor  tarefa.

Mas vou fazer uma lista, sim.

Como esse ano foi um ano particularmente muito diferente dos últimos, onde imperaram as mudanças e as novidades, minha lista vai tratar do melhor de tudo isso. Coisas, pessoas, lugares que conheci e/ou redescobri em 2008.

Além disso,  prometo ser mais assídua esse ano. E talvez mais interessante, mais provocativa, mais verdadeira. Fica postado aqui, pra posteriores cobranças. ( minhas mesmo).

04
Jan
09

O Muro da Vergonha

Separando o território israelense do território cisjordaniano, o muro prevê uma extensão total de 721km, dos quais bem mais que a metade já foi cumprida a construção; cerca de 80% dêle, está em território cisjordaniano, chegando a aprofundar-se neste em até 20 km. Inclui importantes e densos assentamentos israelenses. É contituído de grandes módulos de concreto armado de 8 metros de altura, e conta com torres de observação, proteção de farpados, e uma estrada, rente ao muro, para locomoção de patrulhas militares. Para sua construção, muitas propriedades palestinas foram destruidas, inclusive olivais centenários.

( Informações a mim transmitidas por Adelar Bazzanella, mestre, amigo e militante da causa palestina)

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A Mitologia Grega apresentava Marte como o Deus da Guerra. Um ser cruel e sanguinário, tomado como a personificação da carnificina. Dormia em um leito feito com a pele dos guerreiros que trucidava nos campos de batalha.

Nem ele, tão atroz e cruel, seria capaz de continuar pisando na faixa de Gaza. Deve ter abandonado o local com vergonha do que viu.

01
Jan
09

Para passar a régua em 2008

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Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.