Arquivo para a categoria 'Ilíada'

11
Jul

Tróia X Helena de Tróia

Infelizmente a foto não é minha. rs. Aproveitem pra ver o detalhe que passou batido para a produção.

Uma coisa é o sujeito pegar uma obra que ninguém conhece e adapatar como lhe convém. Mudar o que acha que o autor poderia ter feito diferente. Agora, quando se trata de um clássico da literatura, um dos alicerces da mesma, como é o caso da obra de Homero, é preciso um pouco mais de carinho e atenção para o que se faz. É respeito com o peso da obra, com as pessoas que estudam e conhecem a mesma.

O que foi feito em Tróia, dirigida por Wolfgang Peterson, com Brad Pitt no papel de Aquiles, é chato, mas aceitável. Afinal, trata-se de uma versão hollywoodiana, feita pra agradar quem quer ver um épico bem produzido e dane-se a fidelidade do roteiro. Mas respeitou-se o básico: a ira do Peleio Aquiles, principalmente.

Sumiram com a Criseida, e fizeram da Briseida uma sobrinha de Príamo. Criaram um casal que não exite: Aquiles e Briseida. No pálacio Helena e Páris, no acampamento a escrava e o guerreiro. Dois casais num filme só. Sucesso garantido, Hollywood adora romance. E esse é o ponto que mais incomoda quem conhece a Ilíada. Mas de resto, mantêm-se o mais importante. A guerra, a briga com Agamemnon, etc…

As outras modificações que incomodam são a morte de Patroclo, o sumiço de todos os outros heróis, como se só houvesse Aquiles na batalha e a ausência total dos deuses, os quais sabemos que na Ilíada determinam tudo o tempo todo.

Apesar disso, de maneira geral, é bom. Um grande épico, muito vem dirigido, bem relista em alguns aspectos, impecável em figurino, quantidade de figurante, batalhas, etc. E isso já vale alguma coisa, não te deixa com raiva.

O mesmo não se pode dizer a respeito de Helena de Tróia, de John Kent Harrison, e com roteiro de Ronni Kern. É daqueles que você se pergunta porque o sujeito disse que baseou num livro que ele provavelmente não leu, e se leu não gostou, porque mudou absolutamente tudo que pode. Alias, creio eu, que se alguém leu a Ilíada e não gostou é porque não entendeu. E nesse caso, o roterista só leu a capa do livro, se muito aqueles resuminhos que estão no início de cada canto em algumas edições.

Começa mais ou menos bem, contando a história do nascimento de Páris e do Pomo de Ouro ( meio sem explicar, mas conta). Depois, senta que lá vem a história. Quanta bobagem!

As piores são:

1. Aquiles bombadão e careca. (Alguém pode me dizer como Palas o agarraria pela flava coma se ele fosse careca?) É um completo demente, que como todos nesse filme, fica à sombra do Vanglorioso Avidíssimo Atrida. Amisíssimo de Agâmemnon. Sabe aquele bombadão da acadêmia? Tanto que matou Heitor com um golpe só, e por isso ficou arrastando o corpo e gritando: “um golpe só, um golpe só.” E o fez para defender o Atrida, porque Patroclo não existe nessa versão da história. Inclusive, vale ressaltar que, idependente do quanto da Ilíada o roteirista leu, certamente não leu os primeiros versos. “Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles a ira tenaz…” lembram? Aquiles lutou o filme todo.

2. O sacríficio de Ifigênia. É apresentada como a única filha de Atrida. Ainda uma criança. ( alguém me diz de onde vai sair o Orestes?)

3. Menelau é um bundão, Ulysses é um bundão e é vidente. Ele diz que precisam terminar a guerra porque a esposa não vai conseguir enrolar os pretendentes muito tempo com a história do tear .( poderia me perguntar se ele soube pelo celular ou pelo msn, caso o fato não tivesse ocorrido depois do fim da guerra). Alias, só tem bundão nesse filme. O cachê deve ter sido um horror para os heróis secundarios.

4. Cassandra é uma histérica insuportável.

5. O Duelo de Menelau e Páris. Essa é a pior parte. Se eu encontrasse o roteirista, diria: “confessa, vai, você chegou na metade do livro e cansou porque era muito grande, aí resolveu fazer qualquer coisa.” Quanta bobagem. O duelo é sugerido por Agâmemnon. O mesmo envenena a lança do irmão Menelau, que ao tocar o braço de Páris, o deixa doidão e tonto. Ele cai, e quando está para ser morto, vem a nuvem de fumaça. Nesse momento você está jurando que ele vai dar uma dentro, finalmente, o que acontece a seguir? Pasmem, Menelau senta ao lado de Páris e eles começam a bater papo!
Depois disso, Heitor chama o Vanglorioso Avidíssimo Atrida pra duelar, mas quem duela em seu lugar por livre e espontânea vontade é, pasmem de novo, Aquiles!

A essas alturas não dá mais pra enumerar a sucessão de bobagens. Só vale dizer que Helena vai até a tenda do Atrida pra se entregar, ele não aceita, mas depois vai atrás dela, então Páris mata Aquiles, Agâmemnon mata Páris, os gregos somem e o Cavalo aparece do nada.

Pra fechar com chave de ouro, o Atrida estupra Helena na frente de Menelau e quem aparece de manhã? Clitemnestra gentil que mata o marido em Tróia!

Eu não sei porque me dei ao trabalho de postar tudo isso. Acho que foi um surto de indignação por ver tanta bobagem, e uma tentativa de fazer com que os amantes da Ilíada não tenham a mesma decepção. É claro que eu esperava que tivesse algumas deturpações, mas tudo tem limite né.

Ah..ia esquecendo…o figurinho é uma merda..os figurantes são poucos e as naus gregas são tão poucas que a esquadra de cabral daria inveja aos caras.

esse é o Aquiles de Helena de Tróia

09
Jul

para ler a ilíada…

Preparando o feijão para acompanhar a Ilíada: a convidada Sissi, Paulo Ugolini, Rodolfo Brandão, e eu ( em terceira dimensão mostrando a cena pra você). O quarto membro do grupo Quatro Contra Tróia, Gustavot Diaz, pra variar, fugiu da camêra.

Falando na Ilíada, o nosso amigo e poeta Rodolfo Brandão prestou um grande serviço de utilidade pública, criando um blog no qual postou a Ilíada na íntegra. Sem notas. Mas aí já é querer demais, né? Mas tem vários links afins, que ajudam a buscar referências.

17
Abr

Casa da Claudete

Claudete Pereira Jorge lendo o quê?

E o fogoso Pelides: “Sem rebuço,
Dial sangue e astutíssimo Laércio,
Declaro-te o que sinto, em que hei sentado;
Nem mais teimem comigo, nem me azoinem.
Qual do Orco as portas, abomino aquele
Que na boca desmente o oculto n’alma.
Descubro a minha: o Atrida não me dobra,
Nem outro Grego, a tanto esforço ingratos
O acre ou forte em conflito, o imbele ou frouxo
Quinhão parelho têm e as mesmas honras;
Têm o enérgico e o mole igual sepulcro.
Que tirei de cruéis padecimentos,
De infindos prélios, de hórridos perigos?
Ave sou, que afamada olvida as penas,
Pesquisando o cibato a implumes filhos.
Noites insones, sanguinários dias
Curti sem conto a contrastar guerreiros
Pelas mulheres vossas. Praças doze
Eu devastei por mar, onze por terra
Nessas veigas Troianas. Vim de alfaias
E espólios carregado, e à vista os punha
De Agamêmnon; que a bordo os ferrolhava,
E poucos repartia a reis e a cabos.
Estes os têm consigo: eu só dos Gregos,
Fui da querida minha defraudado…
Pois que durma e deleite-se com ela.
Por que esta guerra? O exército Agamêmnon
Por causa não chamou da pulcra Helena?
Atridas sós entre os falantes amam?
Ama a consorte sua o reto e probo;
Eu muito amava aquela, embora serva.
Arrancou-ma falaz: pois basta, cesse
De me tentar em vão. Contigo e os outros
Busque, Ulisses, as naus livrar do incêndio.
Sem mim já fez milagres, celsas torres,
Profundo e largo fosso e paliçadas:
Nem pode assim de Heitor suster o choque!
Do fero Heitor, que nunca, eu posto em campo,
Quis longe pelejar das portas Ceias,
Nem da faia passar! um dia apenas
Meu ímpeto arrostou; salvou-se a custo.
O herói não mais profligo; e na alvorada,
Assim que imole à corte e ao rei celeste,
Meus baixéis bem providos se o desejas,
Verás em nado, e o som da ardente voga
O piscoso Helesponto irem sulcando.
Com favor de Netuno, à luz terceira
Seremos nas de Ftia amigas várzeas.
Riquezas lá deixei, partida infausta!
Bronze e ouro do sorteio, airosas moças,
Ferro polido ajunto-lhes; que o dado
O magnânimo Atrida retomou-me.
Repete-lhe isto às claras ante os Gregos,
Por que todos se indignem, se impudente
Conta iludir algum. Protervo e ousado,
O descoco não teve de encarar-me.
Nem mais consulto, nem com ele trato:
Enganou-me ofendeu-me; é de sobejo.
De mim descanse; ao precipício corra,
Que o privou da razão previsto Jove.
Como a escravo o desprezo e os dons lhe odeio:
Nem que o décuplo e em dobro me ofertasse
Do que amontoa o cobiçoso espera,
Quanto Orcómeno importa, quanto a Egípcia
Hecatômpila Tebas entesoura,
Que, duzentos campeões de cada porta
Vazando, carros vinte mil despede;
Nem que prometa os mares e as areias,
Me há de acalmar, sem que me pague o insulto
Gota por gota. A filha, não lha quero,
Vênus fosse em beleza, em lavor Palas:
Aspire a genro de mais polpa e vulto.
A preservar-me o Céu, de Hélade e Ftia
Peleu me escolha algumas dentre as virgens
De príncipes colunas dos Estados,
E a que eu prefira me será consorte:
O coração me pede grata esposa,
Que se afeiçoe aos prédios meus paternos.
São à vida inferiores os tesouros
Que, antes do cerco, a populosa Tróia
Em si continha, e as do vibrante Febo
Da sáxea Pito do marmóreo templo:
Reconquistar podemos bois e ovelhas,
Trípodes e frisões de ruiva crina:
Mas do encerro dos dentes a alma nossa
Fora uma vez, não se recobra nunca.
A mãe déia argentípede o meu duplo
Fado abriu: se debelo a grã cidade,
Não regresso, mas compro glória eterna;
Se torno ao doce ninho, murcha a glória,
Terei velhice longa e fim tardio.
Os mais que voguem: não vereis o termo
De Ílio escarpada; o mesmo Altitonante
A mão lhe estende e exalta-lhe a coragem.
Ide anunciar aos próceres, Aquivos,
É dever de legados, que outro plano
Tracem de proteger as naus e as tropas:
Este falhou, persisto incontrastável.
Pernoite Fênix, e amanhã me siga,
Por gosto e não forçado, aos pátrios lares.”

Ilíada- Homero- tradução de Odorico Mendes

27
Mar

Retalhos de Guerra

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Então, entre libações e batalhas,
amanheceu. Assim, com o olhar fixo
à morada de tantos numes anseio:
Faustos deuses hão de me fazer vencer
a guerra que meus olhos travam em ti.

Por enquanto, apenas tuas lancetadas
atingem em mim o seu alvo certeiro.
Nem bigas, nem gládios, ou o argênteo arco
do grã-frecheiro me valem agora.

Assim deixo-me ficar, a carpir-me
pesarosa ante a espumante beira,
rogando à Dial Ciprina que me
apazigue o peito e outorgue a glória
de seguir contigo e ser-te o prêmio,
té que eu envelheça em teu pálacio,
a urdir-te teias e a compor teu leito.