(Fotos: Adriana Baggio)
Há algum tempo estou pensando em colocar algumas coisas no papel e nada melhor que o dia em que aconteceu , em Curitiba, a Marcha das Vadias, para fazer isso. Infelizmente não pude comparecer por não estar na cidade, mas a minha opinião a respeito das Marchas que estão acontecendo mundo afora já estava formada, independente de comparecer ou não. Tenho pensando bastante sobre isso e lido muitas opiniões a respeito, geralmente em blogs de companheiras feministas . Não vou fazer um histórico da marcha porque não há necessidade. Muitos textos de boa qualidade já foram publicados onde é possível obter tais informações.
A primeira coisa a se pensar é que a marcha, aqui, tem uma conotação muito diferente da que aconteceu no Canadá. Não porque as organizações das marchas brasileiras tenham objetivos distintos, mas o contexto histórico das lutas aqui e lá, assim como diferenças culturais, o histórico machista-escravocrata do nosso país, fazem com que os efeitos da marcha no público em geral sejam bem diferentes por aqui. Podemos começar pensando, inclusive, no próprio evento que originou a marcha canadense. Lá, as mulheres não se calaram diante de uma declaração pública machista e absurda e a mesma foi motivo suficiente para irem às ruas. Aqui as declarações machistas são lugar comum. Tão comum que a própria marcha é alvo de críticas reacionárias e piadas idiotas de quem não percebe o tamanho do problema que ela traz à tona, que ela quer discutir. Inclusive muitas mulheres têm uma ideia bastante equivocada da marcha. É possível perceber também a visão equivocada que homens e muitas mulheres têm do feminismo e das lutas históricas das mulheres, do quanto ainda precisamos lutar. Acho que o texto da Lola sobre isso é bem bacana neste sentido e vale a pena ser lido. (inclusive acho que seria bacana vc abrir esta janelinha, dar uma pausa neste textinho aqui, ler o outro texto, e se quiser, voltar aqui).
Bom, talvez realmente a marcha não seja o melhor lugar para se discutir o assunto, mas o fato é que é preciso discutir e muito esse assunto. Profundamente. Na verdade, o grande mérito da marcha é trazer isso à tona. Com a marcha vieram os comentários em torno da palavra vadia, ou vagabunda, e seu uso tão machista e retrógrado. De como é sintomático o fato de de tal teor pejorativo estar associado a uma tentativa de controle absurda sobre nossos corpos, sobre nossas vidas. E há quem não perceba, há quem diga que não existe machismo, que não há mais desigualdade de gênero, que somos livres e que o feminismo é coisa de mulher-macho e suas pautas ultrapassadas. Ora, caras amigas, quem dera as pautas feministas já estivessem ultrapassadas e não houvesse mais a necessidade de uma marcha desta ou de outras manifestações relacionadas ás questões de gênero. Mas já está mais do que na hora de abrir o olho e jogar fora as ilusões que nos fizeram acreditar que o machismo acabou ou que não é tão nocivo hoje quanto sempre foi. Machismo fere, machismo mata. Machismo se esconde em pequenas ações que são tão comuns que nem sempre conseguimos perceber o tamanho do machismo que carregam. Tem machismo até nas promessas de liberdade. Há mulheres que acreditam que a liberdade sexual completa existe. Pois bem, espere que o Papai Noel a traga pra você ou entre na luta, porque você está sendo enganada.
Lembra do comentário machista dos CQCs sobre amamentação em público? Sintoma! Quer dizer que mostrar os peitos pra macho ter fantasia sexual pode, alimentar a prole e estragar a fantasia, não! Assim como em revista, novela, filme e BBB, tem um monte de coisa que é legal: transar com desconhecidos, ser “liberada”, usar roupas sensuais, falar palavrão, entre tantas. Ah, mas a minha irmã, namorada, mãe fazer uma coisa dessas, jamais! Ela não é vadia!
Violência sexual tem que ser debatida com urgência e seriedade. Mulheres são agredidas todos os dias, física e verbalmente. E nem precisam usar saia curta pra isso. Alias, em geral não precisam nem sair de casa. É isso que tem que ser visto, dito e combatido.
Violência Sexual é muito mais que o estupro. Que obviamente é a pior de todas, mas não a única. Marido que chega em casa, bêbado ou não, e obriga a mulher a fazer sexo porque é obrigação de esposa estar disponível todos os dias, está cometendo um estupro também. É violência sexual sim. E para você, mulher moderna que acha que isso só acontecia no tempo de sua vó: Acorda, Bela Adormecida! Vai para a periferia para ver o tempo da sua vó acontecendo em diversos âmbitos. Quanto mais baixa a camada social, mais machista e violenta. Isto porque controlar a mulher, a força reprodutiva, manter as estruturas como estão, facilita as classes dominantes a manterem o status quo. Pobres cheios de filhos garantem reserva de mercado, e garantem que os pobres continuem pobres. Machismo atravessa a luta de classes e oprime as mulheres, de maneiras distintas, em todas as classes.
Assédio sexual também é violência. E não é só no trabalho. Qualquer tipo de assédio sexual é constrangedor. Seja lá onde for. Venha de quem vier. A maioria dos homens não percebe que “cantadas” não são lisonjas. E não é que não se possa mais flertar, mas vamos ter um pouco mais de sensibilidade. Há muitas maneiras de se fazer isso sem ser invasivo. Sorrir e ser amiga não é sinônimo de querer ser assediada. Mas o pior mesmo é o assédio de estranhos na rua. Isso sim é uma baita violência. Você está na rua tranquila e tem lá um babaca que acha que pode te chamar de gostosa, te convidar pra dar uma voltinha e lá vai mais baixaria. Sempre digo que deveríamos ter o direto de responder a esse tipo de agressão com pedradas. Só assim talvez os homens entendessem o tamanho da violência que eles nos impõe com estas atitudes. E não venham me dizer que mulher gosta, que isso ou aquilo, e que isso é exagero, porque não é. Qualquer afirmação contrária é manifestação de machismo sim, assim como a piadinha imbecil do Rafinha Bastos.
Enfim, acho que neste sentido a Marcha das Vadias abriu um espaço, principalmente na mídia (tradicional ou alternativa) para uma discussão importantíssima e urgente. Tragam à tona os casos, os números, quebre-se o silêncio, a vergonha e os tabus e vamos combater o machismo e a violência sexual.
Lembrando sempre que roupa curta, álcool, liberdade sexual, compromisso, amor e tesão. Nada disso é convite para estupro ou qualquer tipo de violência sexual.


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