Arquivo para Abril, 2008

30
Abr
08

A Divina Comédia

Dizem que quando alguém perguntava a Jorge Luis Borges se ele lia o que seus contemporâneos andavam escrevendo, ele costumava dizer “não, estou atrasados com os clássicos”. E quem não está? Eu, particularmente, confesso estar atrasadissíma. Mas, correndo atrás do prejuízo. Além da Ilíada, que tornou-se a minha grande paixão literária e objeto de estudos e trabalho pelos próximos dez anos, no mínimo, encantei-me nesse fim de semana pela grande obra de Dante Aligheri. Na verdade, um interesse que eu já tinha há muito, mas que ainda estava apenas no campo da vontade.

Porém, nesse fim de semana, quando descobri a tradução de Augusto de Campos para o Canto V, do Inferno, não pude me contar a correr e estudar a obra. Infelizmente, só temos uma tradução completa, em versos na Lingua Portuguesa, que é a do Xavier Pinheiro. As traduções do Augusto são muito melhores, mas ele traduziu apenas alguns cantos. Mas não desmerece a tradução do xavier, que apesar de não fluir de maneira tão brilhante quanto a outra, também segue a estrutura de Tersinas usada por Dante. Outro ponto que vale a pena atentar na tradução do Xavier são as notas, que são muitas e bem esclarecedoras, e uma introdução que dá boas explicações sobre a Dante e a Divina Comédia. Só isso já vale a leitura da obra.

Procurei o tradução do Canto V do Augusto pra postar aqui mas não encontrei. Segue um fragmento da tradução do Xavier Pinheiro. Nesse canto, Dante encontra-se num dos primeiros círculos do Inferno ( ver figura- n. 5), que é o círculo da Luxúria. O nome já diz tudo, né? Lá, os pecadores ficam girando eternamente no ar. Entre as varias figuras que lá se encontram, como Cleópatra, Helena, Páris e Aquiles, está Francesca de Rimini, que narra a sua história e de seu amante ao poeta.

CANTO V (fragmento)

Eis já começo da infernal geena
A ouvir os lamentos: sou chegado
Onde intenso carpir me aviva a pena.

Em lugar de luz mudo tenho entrado:
Rugia, como faz mar combatido
Dos ventos, pelo ímpeto encontrado.

Da tormenta o furor, nunca abatido,
Perpetuamente as almas torce, agita,
Molesta, em seus embates recrescido.

Quando à borda do abismo as precipita,
Ais, soluços, lamentos vão rompendo.
Blasfema a Deus a multidão maldita.

Ouvi que estão no padecer horrendo
Os que aos vícios da carne se entregavam,
Razão aos apetites submetendo.

Quais estorninhos, que a voar se travam
Em densos bandos na estação já fria,
Em rodopio as almas volteavam,

Ao capricho do vento, que as trazia.
De pausa não, de menos dor a esp’rança
Conforto lhes não dá nessa agonia.

Como nos ares longa série avança
De grous, que vão cantado o seu grasnido,
Assim no gemer seu, que não descansa,

Traz o tufão as sombras desabrido.
— “Mestre” — disse eu — “quais almas são aquelas
Que o vendaval fustiga denegrido?”

— “A primeira” — tornou Virgílio — “entre elas
De quem notícias ter desejarias,
Regeu nações, diversas nas loquelas.

“De luxúria fez tantas demasias
Que em lei dispôs ser lícito e agradável
Para desculpa às torpes fantasias.

“Semíramis chamou-se: o trono estável[2]
Herdou de Nino e foi a sua esposa.
Do Soldão teve a terra memorável.

“A morte deu-se a outra, de amorosa,[3]
Às cinzas de Siqueu traidora e infida;
Cleópatra após vem luxuriosa”.[4]

Helena vi, a causa fementida[5]
De tanto mal, e Aquiles celebrado
Que teve por amor a extrema lida.

Páris, Tristão e um bando assinalado[6]
De sombras me indicou, nomes dizendo,
Que à sepultura amor tinha arrojado.

A compaixão me estava confrangendo,
Dessas damas e antigos cavaleiros
Nomes ouvindo e mágoas conhecendo.

Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros[7]
Dois, que ali vêm, falar muito desejo:
Ao vento ser parecem tão ligeiros!”

“Hás de ter” — me tornou — “asado ensejo,
Quando forem mais perto; então lhes pede
Pelo amor que os uniu: virão sem pejo”. —

Quando acercar-se o vento lhes concede
A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas,
Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede”. —

Quais pombas, que saudosas de asas fitas,
Ao doce ninho, em vôo despedido,
Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas:

Tais saíram da turba, em que era Dido,
A nós as duas sombras se inclinando,
Tanto as moveu da voz o tom sentido!

— “Entre beni’no, compassivo e brando,
Que nos vem visitar por este ar perso,
Tendo nós dado o sangue ao mundo infando,

“Se amigo o Senhor fosse do universo,
Da paz aos rogos nossos, gozarias,
Pois te enternece o nosso mal perverso.

“Enquanto o vento é quedo, o que dirias
Havemos nós de ouvir atentamente;
Diremos quanto ouvir desejarias.

“Onde, a paz desejando, o Pado ingente
Com seus vassalos para o mar descende,
A terra, em que hei nascido, está jacente.

“Amor, que os corações súbito prende,
Este inflamou por minha formosura,
Que roubaram-me: o modo inda me ofende.

“Amor, em paga exige igual ternura,
Tomou por ele em tal prazer meu peito,
Que, bem o vês, eterno me perdura.

“Amor nos igualou da morte o efeito:
A quem no-la causou, Caína, esperas”.
Após tais vozes foi silêncio feito.

Daquelas almas as angústias feras
Em meditar amargo a fronte inclino
Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?”

Quando pude, falei: “Cruel destino!
Que doce cogitar! Que meigo encanto,
Precederam do par o fim maligno!” —

Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto:
“Teus martírios, Francesca, me angustiam,
Movem-me o triste, compassivo pranto.

“Quando os doces suspiros só se ouviam,
Como, em que Amor mostrar-vos há querido
Os desejos, que ainda se escondiam?” —

— “Não há” — disse — “tormento mais dorido
Que recordar o tempo venturoso
Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido.

“Mas porque de saber és desejoso,
Como nasceu a flor do nosso afeto,
Direi chorando o lance lastimoso.

“Por passatempo eu lia e o meu dileto
De Lanceloto extremos namorados;
Éramos sós, de coração quieto.

“Nossos olhos, por vezes encontrados,
Cessam de ler; ao gesto a cor mudara.
Um ponto só deu causa aos nossos fados.

“Ao lermos que nos lábios osculara
O desejado riso, o heróico amante,
Este, que mais de mim se não separa,

“A boca me beijou todo tremante,
De Galeotto fez o autor e o escrito.
Em ler não fomos nesse dia avante”.

Enquanto a história triste um tinha dito,
Tanto carpia o outro, que eu, absorto
Em piedade, senti letal conflito,

E tombei, como tomba corpo morto.

17
Abr
08

Casa da Claudete

Claudete Pereira Jorge lendo o quê?

E o fogoso Pelides: “Sem rebuço,
Dial sangue e astutíssimo Laércio,
Declaro-te o que sinto, em que hei sentado;
Nem mais teimem comigo, nem me azoinem.
Qual do Orco as portas, abomino aquele
Que na boca desmente o oculto n’alma.
Descubro a minha: o Atrida não me dobra,
Nem outro Grego, a tanto esforço ingratos
O acre ou forte em conflito, o imbele ou frouxo
Quinhão parelho têm e as mesmas honras;
Têm o enérgico e o mole igual sepulcro.
Que tirei de cruéis padecimentos,
De infindos prélios, de hórridos perigos?
Ave sou, que afamada olvida as penas,
Pesquisando o cibato a implumes filhos.
Noites insones, sanguinários dias
Curti sem conto a contrastar guerreiros
Pelas mulheres vossas. Praças doze
Eu devastei por mar, onze por terra
Nessas veigas Troianas. Vim de alfaias
E espólios carregado, e à vista os punha
De Agamêmnon; que a bordo os ferrolhava,
E poucos repartia a reis e a cabos.
Estes os têm consigo: eu só dos Gregos,
Fui da querida minha defraudado…
Pois que durma e deleite-se com ela.
Por que esta guerra? O exército Agamêmnon
Por causa não chamou da pulcra Helena?
Atridas sós entre os falantes amam?
Ama a consorte sua o reto e probo;
Eu muito amava aquela, embora serva.
Arrancou-ma falaz: pois basta, cesse
De me tentar em vão. Contigo e os outros
Busque, Ulisses, as naus livrar do incêndio.
Sem mim já fez milagres, celsas torres,
Profundo e largo fosso e paliçadas:
Nem pode assim de Heitor suster o choque!
Do fero Heitor, que nunca, eu posto em campo,
Quis longe pelejar das portas Ceias,
Nem da faia passar! um dia apenas
Meu ímpeto arrostou; salvou-se a custo.
O herói não mais profligo; e na alvorada,
Assim que imole à corte e ao rei celeste,
Meus baixéis bem providos se o desejas,
Verás em nado, e o som da ardente voga
O piscoso Helesponto irem sulcando.
Com favor de Netuno, à luz terceira
Seremos nas de Ftia amigas várzeas.
Riquezas lá deixei, partida infausta!
Bronze e ouro do sorteio, airosas moças,
Ferro polido ajunto-lhes; que o dado
O magnânimo Atrida retomou-me.
Repete-lhe isto às claras ante os Gregos,
Por que todos se indignem, se impudente
Conta iludir algum. Protervo e ousado,
O descoco não teve de encarar-me.
Nem mais consulto, nem com ele trato:
Enganou-me ofendeu-me; é de sobejo.
De mim descanse; ao precipício corra,
Que o privou da razão previsto Jove.
Como a escravo o desprezo e os dons lhe odeio:
Nem que o décuplo e em dobro me ofertasse
Do que amontoa o cobiçoso espera,
Quanto Orcómeno importa, quanto a Egípcia
Hecatômpila Tebas entesoura,
Que, duzentos campeões de cada porta
Vazando, carros vinte mil despede;
Nem que prometa os mares e as areias,
Me há de acalmar, sem que me pague o insulto
Gota por gota. A filha, não lha quero,
Vênus fosse em beleza, em lavor Palas:
Aspire a genro de mais polpa e vulto.
A preservar-me o Céu, de Hélade e Ftia
Peleu me escolha algumas dentre as virgens
De príncipes colunas dos Estados,
E a que eu prefira me será consorte:
O coração me pede grata esposa,
Que se afeiçoe aos prédios meus paternos.
São à vida inferiores os tesouros
Que, antes do cerco, a populosa Tróia
Em si continha, e as do vibrante Febo
Da sáxea Pito do marmóreo templo:
Reconquistar podemos bois e ovelhas,
Trípodes e frisões de ruiva crina:
Mas do encerro dos dentes a alma nossa
Fora uma vez, não se recobra nunca.
A mãe déia argentípede o meu duplo
Fado abriu: se debelo a grã cidade,
Não regresso, mas compro glória eterna;
Se torno ao doce ninho, murcha a glória,
Terei velhice longa e fim tardio.
Os mais que voguem: não vereis o termo
De Ílio escarpada; o mesmo Altitonante
A mão lhe estende e exalta-lhe a coragem.
Ide anunciar aos próceres, Aquivos,
É dever de legados, que outro plano
Tracem de proteger as naus e as tropas:
Este falhou, persisto incontrastável.
Pernoite Fênix, e amanhã me siga,
Por gosto e não forçado, aos pátrios lares.”

Ilíada- Homero- tradução de Odorico Mendes

17
Abr
08

Que te espanta Helena?

Helena Portela em momento “It`s Amazing!”

17
Abr
08

Instantâneos de Felicidade

Foto do Mestre Henri Cartier-Bresson

Às Vezes

Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

Fernando Pessoa

16
Abr
08

Dica da Mulher Invisível

s

Pra ouvir em fins de noite, tardes chuvosas ou domingos ensoralados.

Na falta da melhor versão, com o Jorge Ben Jor sozinho, fica essa mesmo.

14
Abr
08

Sorex e Minustah

Eu amo sorex
seus cabelos longos de mulher vermelha,

seu sorriso ardente, sua pele honesta,
suas superquadras verdes de cimento e lua.
Eu amo sorex
por cima das conjecturas e conveniências,
por cima das burocracias
e nomenklaturas,
dos papéis timbrados e dos ministérios,
do velado apoio ao capital de usura,
eu amo sorex.
Paulo Bearzoti (foto tirada na Casa da Claudete)
10
Abr
08

Copyleft …ou post das explicações inúteis

Para os novos visitantes, os quais ainda não explicitei a lógica das coisas que faço, é o seguinte:

Tudo que não tem o nome de ninguém, é meu, o que não é leva os devidos créditos e pra facilitar mais ainda estará em itálico.

Segue a regra do copyleft…pode copiar qualquer coisa e publicar em qualquer lugar, desde que não esqueça dos créditos e da fonte.

10
Abr
08

Declaração universal das maiores mentiras da humanidade

Artigo 1
Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

07
Abr
08

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Da série Paulinho adverte: “Essas antenas ainda vão nos causar um câncer!”