
da série Kzuka no Planeta Atlântida- Floripa.

da série Kzuka no Planeta Atlântida- Floripa.

Então, entre libações e batalhas,
amanheceu. Assim, com o olhar fixo
à morada de tantos numes anseio:
Faustos deuses hão de me fazer vencer
a guerra que meus olhos travam em ti.
Por enquanto, apenas tuas lancetadas
atingem em mim o seu alvo certeiro.
Nem bigas, nem gládios, ou o argênteo arco
do grã-frecheiro me valem agora.
Assim deixo-me ficar, a carpir-me
pesarosa ante a espumante beira,
rogando à Dial Ciprina que me
apazigue o peito e outorgue a glória
de seguir contigo e ser-te o prêmio,
té que eu envelheça em teu pálacio,
a urdir-te teias e a compor teu leito.
Eu, que fui criança nos anos 80, queria ser igual a ela, ou a She-ra…(cada coisa, né?)

Numa dessas minhas crises de estagnação, de completa dificuldade de articular os pensamentos e tranformá-los em textos minimamente coerentes e interessantes, numa dessas minhas angústias particulares que me têm sido tão frequentes nos últimos anos, tive um momento em particular que merece ser aqui citado.
Talvez isso explique, em partes, porque eu desapareço de vez em quando. Não que eu realmente acredite que explicações nesses casos sejam necessárias, ou que venham a convencer alguém de fato. Para mim isso já está além do alcance, já virou metafísica. Mas esse momento, essa explicação em especial, só merece atenção porque traz à tona a minha forte relação com Fernando Pessoa, que é algo que faz tão parte de mim como meus cabelos ou meus cravos no nariz. Existe, é fato e não tem jeito.
A insônia tem sido uma companheira constante, mas não teve a ver com o dia em questão. Nesse dia que descrevo em particular, depois de uma noite não muito bem dormida devido a fatores externos como a falta de cobertor ( que é uma das poucas coisas capazes de impedir-me de cair em sono porfundo, além da insônia, é claro), acordei com a alma em desassossego total. Por sorte, olho treinado ou inspiração, o primeiro título entre os tantos livros que estavam à minha volta naquele momento a me chamar a atenção foi justamente o Livro do Dessossego, de Bernardo Soares ( o guardador de livros) – outro heterônimo do Pessoa.
Uma página havia sido marcada, não por mim, e também não tenho idéia de quem seja, mas chego a desconfiar que, dormindo ao meu lado, ou observando-me ao sono, fora o próprio Pessoa que o fizera, visto que o conteúdo parecia sair de dentro de mim e não o contrário, que é o comum ao lermos algo novo. Segue o trecho, para o deleite de todos:
[126]
Tenho grandes estagnações. Não é que, como toda a gente, esteja dias sobre dias para responder num postal à carta urgente que me escreveram. Não é que, como ninguém, adie indefinidamente o fácil que me é útil, ou o útil que me é agradável. Há mais sutileza na minha desinteligência comigo. Estagno na mesma alma. Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias; só a vida vegetativa da alma – a palavra, o gesto, o hábito – me exprimem eu para os outros, e, através deles, para mim.
Nesses períodos da sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. Não sei escrever mais que algarismos, ou riscos. Não sinto, e a morte de quem amasse far-me-ia a impressão de ter sido realizada numa língua estrangeira. Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus atos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.
Assim se passam dias sobre dias, nem sei dizer quanto da minha vida, se somasse, se não haveria passado assim. Às vezes ocorre-me que, quando dispo esta paragem de mim, talvez não esteja na nudez que suponho, e haja ainda vestes impalpáveis a cobrir a eterna ausência da minha alma verdadeira; ocorre-me que pensar, sentir, querer também podem ser estagnações, perante um mais íntimo pensar, um sentir mais meu, uma vontade perdida algures no labirinto do que realmente sou. Seja como for deixo que seja. E ao deus, ou aos deuses, que haja, largo da mão o que sou, conforme a sorte manda e o acaso faz, fiel a um compromisso esquecido.

Iniciei uma série, que alias preciso continuar, de fotos feitas no cemitério São Francisco, Curitiba. Vocês não têm idéia de quanta beleza pode ser encontrada por lá. Melhor do que a maioria dos museus de arte contemporânea do país.
Lembrei, então, de um outro trabalho, que é antigo e interessantissimo. Trata-se de um mesmo cemitério, fotografado nas quatro estações no ano. As fotografias têm algumas intervenções interessantes que tornam o trabalho de Jonathan Clark bem poético.
Este trabalho chama-se After Life – the four season by Jonathan Clark
Para não haver confusão, a foto acima é minha e faz parte da referida série.
Vou começar contando como Aquiles foi parar em Tróia. Mas pra isso é preciso um longo flashback até a ilha de Ítaca, para conhecermos outro herói, Ulisses, que foi responsável por buscar o jovem Aquiles em seu reino e convencê-lo a lutar.
Ulisses era rei de uma ilhazinha não muito importante, mas era considerado um cara foda. Era protegido pela deusa Atena ( que também pode ser chamada de Minerva, ou Palas Atena, ou simplemente Palas, para nós que somos intimos), e considerado um excelente orador, um grande embaixador. Era sempre enviado para tentar resolver as coisas com diplomacia. Quando o príncipe Troiano Páris, levou a bela Helena para viver com ele em Tróia, foi esse diplomático senhor que acompanhou o esposo abandonado, Menelau, até a cidade onde a esposa estava, para pedir amistosamente que o rei a devolvesse. Mas isso não aconteceu, é claro.
Assim, todos os reis gregos, unidos por uma promessa tola que fizeram a Menelau ( e que outro dia eu conto melhor), foram convocados para ir até lá e pagar a mulher ( e os tesouros que a mesma havia levado consigo) na marra. Alguns não tinham nada a ver com a promessa, o que é o caso de Aquiles, mas foram convocados do mesmo jeito.
Ulisses, que é considerado o “espertinho” da Grécia, resolveu , literalmente, se fazer de louco pra não ir à Guerra. Saiu semeando sal nas próprias terras. Mas a alcunha de “astuto Ulisses” não lhe valeu muito nessa hora. Foi logo desmacarado e obrigado a lutar.
Sua primeira missão: Trazer o jovem Aquiles para guerrear, pois sem ele as chances dos gregos diminuiam significativamente. O que nos faz imediatamente supor que o cara era o fodão da história. E era mesmo, mas não como você viu no cinema.
Se você, que assistiu Tróia, estiver pensando, “já vi esse filme, ele vai lá e convence o Brad Pitt porque o cara era um baita orgulhoso”, está muito enganado. Porque não foi nada disso. Alias, foi bem mais engraçado.
Eu até deixarei que você imagine um Aquiles parecido com o Brad Pitt, pra facilitar, mas com algumas ressalvas. Imagine-o sim, louro, forte e cabeludo, mas, o mais importante, com seus 14 aninhos. Isso mesmo. Quando Aquiles foi convocado para a guerra, não tinha nem barba na cara.
Mas como assim? Ele não era o fodão? Você deve estar se perguntando e eu respondo. Era!
O cara é filho de uma deusa chamada Tétis, que o banhou no rio Estige para torná-lo invulnerável. Seu pai era Peleu, rei da Ftia, que era filho de Zeus. Deu pra entender? E tem mais, além de tudo foi educado pelo Centauro Quíron, que o ensinou, incluisve a lutar. E dizem que o garoto era tão psicipata desde cedo, que o centauro tinha que lembra-lo sempre que se ele o matasse acabava a brincadeira.
Quando os rumores de guerra começaram a se espalhar, Aquiles já era rei da Ftia, pois Peleu havia morrido. Suas armas haviam sido feitas pelo próprio Hefésto ( que a grosso modo é o deus do fogo e da forja), e dadas a seu pai no dia de suas bodas ( onde alias rolou uma treta que é a raíz de toda a encrenca- o episódio do pomo da discórdia- que eu conto outro dia).
Acontece que nenhuma mãe vai querer o filho de 14 anos na guerra, mesmo sabendo que ele é “o cara”. Principalmente se existe uma predição que afirma que ele não vai voltar. Então ela resolveu esconder o cara no gineceu. Uma espécie de Colégio Católico pra Moças.
- Aquiles, você tem que vestir essas roupas e passar uns dias no Gineceu.
-Tá maluca mulher? Lá só tem menina e isso são roupas de menina.
-Não discute, você tem que ir e acabou.
- Eu não vou, sou o Rei da Ftia e não vou.
- Se você não for eu te coloco de castigo. Uma mês sem lança. Pior, uma semana sem matar ninguém!
- Poxa, aí é golpe baixo!
Então vai o mocinho se esconder. Agora, mesmo sendo tão jovem, imagine o guerreiro, vestido de mulher, de braços cruzados com a maior cara de quem tá puto.
Chegam Ulisses e outros gregos.
- Bela Rainha, gostariamos de falar com Aquiles, pode chamá-lo, por favor?
-Ah, infelizmente não vai dar.
-Como assim, não vai dar?
-É que não sei por onde ele anda. Saiu pra caçar e não voltou, há três dias.
- Como não voltou? Não estás preocupada?
-Porque deveria? Ele é Aquiles. Não é qualquer um. Além do mais, me disseram que ele estava na companhia de umas mulheres. Sabe como é, né, nessa idade é importante deixar livre.
- Mas e a guerra? A Grécia precisa dele!
-Que pena, não posso fazer nada.
-Então a gente vai esperar.
-(DROGA!!)
No dia seguinte as mocinhas brincavam no quintal do Gineceu.
- Vocês viram que loirinha esquisita aquela ali?
-É. Não se mistura com as outras e tem cara de psicopata.
Então, Ulisses fez jus à sua alcunha de astuto e resolve atacar o gineceu. E a menininha esquisita foi a primeira a pegar uma lança e partir pra cima de todo mundo.
-Calma Aquiles, somos todos gregos, foi só uma brincadeirinha.
-Ah, droga. Quando é que vou poder matar uma meia dúzia de inimigos?
Outra versão diz que Ulisses se vestiu de vendedor e no meio das jóias colocou espadas. Enquanto a mulherada enloquecia com brincos e tiaras, a menina esquisita queria comprar lanças e espadas.
E assim, o jovem Aquiles convoca seu exercito e parte com suas naus em direção à Tróia.
Eu sou a moça da sombrinha, caminhando ao Sol com seu belo vestido, esperando, sonhando, a brincar com pétalas em seu eterno jogo de bem-me -quer…
Eu sou o olhar penetrante e as faces rubras de Apollonia…
Eu sou a mulher no camarote a ver a ópera, com os olhos marejados, sentindo cada acorde da sinfonia no fundo de sua alma…
Eu sou aquela que chora por Luíza e se exalta para defender a honra de Capitu…
Eu nunca fui Virgília, nem Cleópatra…
Eu sou a Teresinha, de um disco velho e arranhado, sempre a repetir a segunda estrofe…
Eu ainda quero ser “Aquela Mulher”…
Eu sou a menina que observa a chuva na vidraça, a desenhar bonecos de palito no vidro…A mulher que esconde a face embaixo do véu…
O beijo de Klimt, ou de Rodin…
A pequena suja a comer chocolates cheios de metafísica…
Isto é algo que dá vontade de ver todos os dias…
Para falar a respeito da água é preciso tornar claro a respeito de qual água estamos falando e que tipo de sensação esta água nos causa. Ao falar de sensação, me refiro tanto ao sentido visual, imaginário, e psicológico, quanto ao sentido físico. Neste momento em particular, quando me encontro cercada por brutas paredes, que me impedem de ao menos sentir a brisa que vêm do mar que fica logo ali ao lado, e que, faz com que a única água com a qual posso estabelecer algum contato visual ou físico seja aquela pertencente a uma pequena porção encerrada em um esguio copo transparente, necessito recorrer aos arquivos da memória para recordar e tentar classificar tais sensações.
A primeira grande diferença entre as águas, da qual sintoagora um profundo desejo de devanear a respeito, é a diferença que vejo entre o mar e o rio. Esse desejo foi desencadeado por uma associação, feita por Bachelard[1], entre o mar e o infinito. Sinto que essa associação findou qualquer possível conflito interno sobre esse assunto e racionalizou os sentimentos de alguém que viveu grande parte da vida às margens de um rio, e hoje vive praticamente à beira-mar. Ao recorrer à memória sobre as sensações causadas pelo mar, emerge a solidão profunda, a sensação de nada poder mudar (ao menos a curto prazo), de nenhum lugar para ir. O mar vai além de onde meu olhar pode chegar, mas isso não me dá a sensação de poder ir adiante, pois meus olhos não o vêm correr para lá. De toda aquela água, parece que só esta que está pertinho de mim pode se mover. Vai e vem, porém nunca pára de fazer a mesma coisa. Como um sofrimento eterno e monótono. Parece que não se move ao longe porque fica cansada. Quando me imagino lá no meio do mar, invade uma sensação de impotência diante de uma imensidão que lentamente me leva a algum lugar que não posso imaginar qual é. Tão vagarosamente que me aflige a possibilidade de nunca chegar lá.
Volto à praia, à brisa ou ao vento triste que me traz tanta melancolia (como na gravura de Dürer[2]), e vejo novamente a água que espera. Eis o mar que espera o rio que vem de tão longe. O rio, ao contrário do mar, jamais fica parado. O rio cresce e segue sempre crescendo, vencendo obstáculos, arrastando coisas e pessoas. O rio me fala da vida e da morte, dos erros e acertos, do fluxo constante da vida que nunca pára, do ser que vai crescendo ao longo da vida, buscando o melhor caminho, e que não sabe exatamente por onde vai passar, mas sabe que por fim chegará ao mar, onde termina seu caminho. Lembra o ciclo da vida e a morte inevitável. O rio tem tantas coisas em suas margens, o mar só tem areia na beira. O rio é doce e refrescante, o mar deixa a gente salgada e grudenta, procurando por água doce, para nos livrar do que não queremos grudado no corpo. Mas, seja doce ou salgada, a água, de uma forma ou de outra, sempre nos alivia quando nos envolve o corpo. Por mais feroz que em alguns momentos ela possa ser, a água sempre nos proporciona uma sensação de plenitude quando nos abraça. Ela leva embora o que nos desagrada, ao mesmo tempo que nos penetra o que possui de essencial a esse corpo tão cheio de água. É como se nossa alma fosse simbolicamente lavada.
Quando estou dentro da água, quando a água me enlaça e lambe o corpo ( e aqui vale o chuveiro, a piscina, a banheira, o rio, o mar, a chuva, e até a mangueira), sinto que as portas se abrem dentro da minha cabeça. O consciente e o inconsciente perdem as fronteiras. Os arquétipos se comunicam e anima perde a timidez. Quanto mais tempo permaneço sob o toque da água, mais coisas ela me conta a respeito de mim mesma e da vida. Fala sobre as coisas cujas quais ela tentou me avisar e eu fingi que não ouvi. Aconselha-me, clareia minha vista e soluciona meus conflitos.
A água está fora e dentro de nós. No sentido físico e simbólico. Eu, particularmente, tenho tanta água dentro de mim que facilmente transbordo e ao dormir ela constantemente invade meus sonhos. Desde pequena, vivo com os olhos molhados. Minha mãe dizia que vivia a lacrimejar. Meus olhos às vezes parecem vazar à toa toda essa água que está dentro de mim. Acho que ás vezes falta espaço para ela no corpo. Houve dias inteiros a vazar e vazar, até eu cansar e dormir, ou encontrar alguém que me fizesse chorar de tanto rir. Pois meus olhos não transbordam apenas quando estou triste. Costumo chorar de rir. Vou de um extremo ao outro em segundos, assim como uma criança que logo esquece o que lhe levou ao pranto. Mas sempre com lagrimas aos olhos. Quando fico “seca” por muito tempo é porque algo está errado. Sinto-me desidratada, sem esperanças, infértil, insensível. Chorar pra mim não dói, salva. O que me angustia mais é secar. Há que associe o choro à fraqueza, que é uma idéia que me recuso a aceitar. Essa associação me parece contra a natureza das coisas, dos seres da vida. Não creio que seja sequer razoável conter esse rio que carregamos dentro de nós. É como tentar conter a fonte de nossas emoções, o que indubitavelmente em algum momento causará uma explosão interna, visto que é difícil conter um rio por muito tempo. É impossível impedi-lhe de fazer a sua trajetória natural que o leva ao mar.
[1] Bachelard, Gaston. A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria.
[2] Dürer- A Melancolia I, 1514